Gaudêncio Figueira Temos algo de cabalístico nisto, para os Portugueses em geral, e, os madeirenses em particular. Em 1961, trinta e cinco anos passados sobre o 28 de Maio de 1926, Angola iniciou a luta armada e, com ela, o fim do Regime. Gerada na Constituição de 1976, a Autonomia, a partir de 2011, decorridos os mesmos 35 anos, degrada-se escondendo a dívida.

O Mundo mudara. A 2ª Guerra derrotou o Totalitarismo Alemão que influenciara o pensamento político do Estado Novo, e, também, determinou o fim dos impérios. O Mundo, em 1960, dividia-se entre comunistas e não comunistas. Portugal, com os seus dirigentes presos às ideias de 1926, não acompanhou a nova realidade. Integrado no Ocidente, não aceitou, como os beligerantes de 1940, a descolonização que alastrava de África, à Ásia e Oceânia. Combateu-a. Para Angola, em força, determinou quem podia, obedeceu, quem devia. Os nascidos na década de 40 são chamados às fileiras. Lá estive entre eles. Recorre o Estado Novo aos estudantes universitários para, como oficiais subalternos, enquadrarem as praças. Passaram-se 13 anos nisto. Eram, os universitários, - garantia o regime à opinião pública - “comunistas”. Havia, porém, entre nós uns quantos que viviam na plenitude a filosofia política do Estado Novo. Propagandeavam-no.

Estive em África, não gostei da guerra, pois é a violência em todo o seu esplendor. Habituei-me, nesses dois anos difíceis, a viver sob tensão e também aprendi o que é servir - não servir-me - com risco da própria vida. Em 1970 voltei ao curso que interrompera em 1966.

Aprovada a Constituição em 1976, imbuído do espírito de servir, aceitei participar na vida pública. Por lá fiquei quatro anos. Saí do GR em 1980, - de livre e espontânea vontade - mantendo-se o Susano em funções. Convidara aquele meu amigo, de liceu e faculdade, com a necessária concordância de quem a mim me convidara, para fazer parte do GR. Partiu há pouco. Mantive com ele a relação de amizade doutros tempos. Conversámos sobre vivências comuns, bem como sobre desenvolvimentos de situações deixadas.

Em 2011, iniciou-se a contagem do período de treze anos- 1961 a 1974 - que corresponde ao arrastar dos pés do Estado Novo. Em 1964, na frente de combate as coisas agudizavam-se e o Povo sentia que mais mancebos partiam. Mas os comunicados das FA´s davam a guerra por terminada dentro de 15 dias. Hoje, não falando claro sobre a dívida faz-se o mesmo. O perdão de 100 milhões autorizados por António Guterres, constituíram dívida feita por quem? Teria sido o Susano?

Não, não foi. Orçamentos sem contrapartidas em numerário remontam ao Adão e Eva da Autonomia.

Nasci na Madeira, logo Português. A tensão do mato foi-me útil para suportar a perseguição de que fui vítima. Um ex-jovem defensor do Estado Novo, lembrando aqueles nazis que se batiam pela Cruz de Ferro - esses ainda iam a combate - frustrado por não ter ido a África, chamava-me patriota e inaugurava monumentos a elogiar o Combatente Madeirense. Queria redimir-se.

Está em exibição, desde 1976, a peça: Autonomia. Um grupo granjeou os espectadores e apoderou-se do palco. Os outros espreitam a vez. Faltando 10 anos para se consumar o triste fim do espectáculo, seria bom que esvaziassem a tensão que já existe. O País chegou a 1974 com 10.000 mortos. A Madeira chegará a 2024, sem mortos em combate, mas com muita fome e desemprego a avaliar pelo que aí vai.

Em nome daqueles que hoje têm 20 anos - os mesmos que eu tinha em 1964 - parem para pensar, e poupem-nos aos 10 anos finais deste estertor doloroso.

O encenador da peça deveria sair de cena, facilitando entendimentos, assumindo, uma vez na vida, uma atitude corajosa.