Uma das grandes recordações que tenho da minha infância, foi de ter tido uma mãe professora, que me transmitiu o gosto e a importância desta nobre profissão. Não sei ao certo se ela influenciou a minha opção por seguir os seus passos, mas sei que com ela aprendi a respeitar e muito o trabalho do professor. Habituei-me a vê-la trabalhar diariamente na preparação das aulas. Recordo ainda o fascínio que eu tinha por aquelas canetas de feltro que deslizavam nas folhas de acetato enquanto a minha mãe escrevia, e as planificações feitas com um pequeno calendário, daqueles que as empresas ofereciam. Tudo isto escrito à mão, no papel. Recordo a forma carinhosa como falava da sua escola, dos funcionários e dos alunos. Estes últimos algumas vezes me reconheciam, pois a minha mãe tinha o hábito de andar com as fotos dos filhos na carteira e, em conversas fora do programa escolar - sim acontecem e são muito pertinentes porque a escola tem de ser para o aluno, não apenas um local de aprendizagens curriculares, mas também de aprendizagem da vida e para a vida -, eram por vezes exibidas. Guardo memória do seu envolvimento e empreendedorismo, do seu espírito de entreajuda, de descoberta, das viagens de estudo e de finalistas que organizou e acompanhou, alguns alunos viajando pela primeira vez de avião! Recordo as vezes em que chegava a casa esgotada e derrotada, depois de um dia de trabalho que não tinha corrido como previsto, lamentando as turmas demasiado grandes ou demasiado conflituosas. Acabei por me tornar professor e, após a conclusão dos estudos universitários e respetiva profissionalização, tive colocação. Nesse sentido, sou um privilegiado. Ao longo dos anos, tenho visto muitos e bons professores, gente com garra, bom senso, e com uma capacidade incrível para motivar e pensar em primeiro nos alunos, profissionais que se readaptam constantemente, inovam, motivam para a aprendizagem e, claro, ensinam. Mas, infelizmente, também me deparei com colegas que não dignificam a classe, com mobilidades duvidosas, concursos e processos de colocações pouco transparentes, que não inspiram confiança... Ultimamente, a minha profissão é notícia constante nos telejornais, porém pelos piores motivos Os meios de comunicação social têm transmitido o caos das colocações e difundido todo uma série de estereótipos que leva a opinião pública a fazer julgamentos errados e denigram a imagem do professor. O que me deixa desiludido. Não que tenha vontade de seguir um novo rumo, contudo, por vezes dou por mim a questionar se esta terá sido a melhor opção que fiz profissionalmente. Uma última nota, discutível é certo... Imagine-se uma empresa em que os funcionários são incessantemente reajustados através de mobilidade e/ou rescisões, de tal forma que o resultado final torna a empresa incapaz de funcionar... por falta de funcionários! Ridículo, certo?

Bernardo Vasconcelos Professor de Ed. Física