Marcos Lemos Em muitos locais de África luta-se pela sobrevivência todos os dias. Cada caloria ingerida é uma pobre recompensa para a existência miserável de muitos milhões de pessoas. A juntar a isto, e também por causa disto, este continente é assolado por doenças infecciosas particularmente devastadoras, como é o exemplo do actualmente muito badalado Ébola.

Para mim, um dos episódios mais significativos destas semanas de fama do Ébola foi a reacção de alguns espanhóis e de toda a blogosfera Ocidental ao abate do Excalibur, o cão da auxiliar de Enfermagem infectada com o vírus. Confrontos com a polícia e mensagens duras, acusando de assassínio o Juiz que mandou abater o cão.

Devo dizer que apoio incondicionalmente a posição do Juiz. Não existem certezas sobre se os cães podem ser vectores – veículo de transmissão da doença – aos humanos. Thomas Frieden, director do U.S. Center for Disease Control and Prevention, mencionou numa entrevista um estudo realizado durante uma epidemia no Gabão em 2001-02, onde foram detectados anticorpos contra o vírus em até 25% dos cães das regiões afectadas. Há quem defenda que o cão apesar de não manifestar a doença a possa transmitir ao Homem. Ficam algumas perguntas: Será que os familiares das mais de 3000 vítimas que já fez o Ébola nos últimos meses teriam alguma dificuldade em decidir sobre esta questão? Provavelmente não. Levaria este cão para sua casa, para junto da sua família? Eu não. Não esperaria outra atitude por parte de um Juiz: por via das dúvidas, colocar o valor da vida dos espanhóis à frente de qualquer outro.

Este episódio é bem demonstrativo de que o conforto da sociedade ocidental, a sensação de falsa segurança, a abundância relativa de recursos faz com que os instintos básicos de sobrevivência se desvaneçam em alguns indivíduos. É um luxo podermos gastar a nossa indignação com o abate de um animal, quando do outro lado da barricada está um vírus que já matou mais de 3000 pessoas. Em África o luxo é sobreviver. E porque o luxo é Sobreviver, é que aproveito este espaço para manifestar toda a minha admiração por todos os Profissionais de Saúde que prestam serviço Humanitário nas zonas mais afectadas em África. Muitos deles oriundos deste conforto ocidental de que todos nós gozamos… Vão literalmente meter-se na boca do lobo, para tratar Seres Humanos. Louvável, não? Acho difícil que na natureza exista outro animal capaz de atitude tão altruísta… Talvez por defeito profissional, nada tem mais valor para mim que a vida Humana e o Bem-estar da comunidade em que me insiro. E por vezes exigem-se decisões difíceis pelo bem de Todos.

Esperemos que o Ébola não decida fazer “mudanças lá em casa”. Para o bem de todos. Para podermos manter o instinto adormecido, e também certos luxos muito próprios da abundância (relativa).