escrevo a passos largos para que se não evada a imagem. vi-te furtiva por duas vezes no retrovisor. a quase secreta imagem parecia desfocada. não seria da velocidade da acelera, era campo aberto, sem perigo, havia margaridas brancas, papoilas encarnadas, ar nos cabelos, e o capacete a tiracolo para sentir liberdade na cara, por dentro das narinas, nos cabelos, coração e pulmões a ofegar. sinto ter sentido as minhas frias até tocar as tuas mãos. sem mecanismos nem freio nem carris metálicos nem a vertigem de saltar do eléctrico em andamento, maior o tempo menor a pressa mais largo o caminho, livres o corpo e o mundo, era afinal uma bicicleta que nos conduzia, a roda directriz à frente, claro, a mostrar o mapa, a motriz atrás, um paradoxo, a dar futuro ao caminho. eu estava de quatro e dois joelhos esfolados. rimo-nos quadrúpedes a fazer desenhos com o sangue claro sobre a erva fresca, a natureza viva, a juntar as pequenas pedras que se tinham tornado por instantes parte da pele. entre nuvens agora, sem rede nem medo nem fôlego o gás aquecido do aeróstato suspendeu-nos altas mais leves que ar, baloiço aéreo sem vertigem nem queda nem perda. por um efeito especial, ‘deus ex machina’, ou pura confiança, um passo apenas foi trampolim para entrarmos no zepelim que de tão lento parecia não ser aeronave mas pássaro ou peixe. por ser eu de águas fundas, gostar de sentir o peso leve da água o ar todo por dentro do corpo para poder flutuar, à boleia da tua mão levei-te de pára-quedas (não pares; não páro) para um hidroavião. ébrias da ausência de gravidade ainda que o mundo parecesse começar a tomar rota certa, planámos entre salpicos salgados e um calor de fazer transbordar os poros de todo o corpo, amarámos em dança suave sobre ondas. o mapa que por dentro dos bolsos trazíamos para perder oceanos, continentes, países e cidades molhou-se, ficaram não os nomes (depois de imersos um alfabeto dissolvido) mas apenas as cores do hemisfério boreal e do hemisfério austral. e a estrela polar, o cruzeiro do sul, a zona tórrida, terra de promessa ou de encontro. sem tremores nem temores nem frio agora em terra firme, de quatro de novo, e um piquenique, framboesas, salada de queijo fresco temperada com pimenta caena, vinho vermelho vivo tinto, tudo verão. e sorríamos. de um lugar que não conheço tocaram-me no ombro perguntas sobre que não sei nada: ‘e as ondas, de onde vêm? os sorrisos, quem os inventou? as saudades, porque doem?’. intuo ter-me lembrado de aprender que a palavra saudade tem quatro sílabas: ‘sa-u-da-de’. para lhe dar o tempo justo, porque demoram duram duras. ouvi a tua voz uma só vez, minha, como se o primeiro e único momento para sempre. sinto ser esta a cumplicidade que só a sós se sente, coisa estranha que nos une. era eu o reflexo no retrovisor. eras tu eu.

Diana Pimentel