Os tempos em que a nossa Saúde era vista como um exemplo para o país, quando era uma verdadeira bandeira da nossa Autonomia, um orgulho para todos os madeirenses e sinónimo de prestígio para os profissionais de saúde que cá trabalhavam, são agora apenas uma memória distante. A nossa Saúde tem sido vítima dos silêncios cúmplices dos responsáveis políticos que, perante factos, acções e afirmações gravíssimas, optaram por deixar tudo na mesma e jogar muitos milhões em cima dos problemas. A tutela do sector tem tentado branquear uma situação cada vez mais negra, nega o óbvio, esconde o que está à vista de todos, justifica o injustificável e avaliza coisas que num país a sério teriam sérias consequências para os responsáveis. Foi o negar da verdade, o persistir nos erros, que levou-nos a estes resultados, a esta triste realidade. Perante a mudança de ciclo que se adivinha e deseja, optaram por acelerar as obras no Hospital Dr. Nélio Mendonça, persistindo e agravando o erro colossal que foi não se ter optado pela construção de um novo hospital. Estas obras irão confirmar a magnitude gigantesca de todos os erros que têm sido cometidos e todas as consequências negativas que se prevêem. As pessoas não terão acesso a boas instalações e a um atendimento com a qualidade desejável com as obras que estão a ser feitas. Os recursos que estão a ser gastos, irremediavelmente e inutilmente, irão condicionar de forma muito negativa a nossa Saúde para os próximos anos e irão obrigar os profissionais a trabalhar com aquilo que nos estão a impor, tirando ao nosso futuro os recursos necessários para podermos evoluir. Ficaremos com o pior e mais caro hospital do país, continuaremos a ter os custos operacionais mais elevados, ficaremos sem dinheiro para fazer um novo hospital, continuaremos a gastar mais em Saúde por pessoa do que em qualquer outra parte e continuaremos a ser líderes nacionais em tudo o que não presta e tenha a ver com a (falta de) Saúde. Tudo está errado na forma como a Saúde está a ser gerida. A tutela política afirma que “não tem nada a esconder e que tudo é feito de forma transparente”, mas ninguém tem a coragem de dizer publicamente quanto é que vai custar a renovação e expansão do Hospital Dr. Nélio Mendonça. Se esta é a melhor opção e a mais barata, esses números deviam ser exibidos publicamente, com todo o orgulho… Recentemente foi publicado pela Escola Nacional de Saúde Pública o ranking dos hospitais portugueses. Se somos tão bons, se está tudo bem e é feito de forma “clara e transparente”, porque não aparecemos neste ranking? A Madeira tem medo de se comparar aos melhores? Porquê? E já agora, o que dizer da “autorização” dada ao SESARAM para “negociar” as 35 horas semanais? Não quero acreditar que se vá prolongar a injustiçaa que são sujeitos os funcionários, para depois “oferecer” às “vítimas”, até que estejam em funcionamento os “Mecanismos de Electrónicos de Controlo de Assiduidade”, que custaram umas centenas de milhares de euros mas que ainda não se sabe se estão destinados a todas as classes profissionais, nem se abrangem todos os funcionários do hospital. A bem da seriedade e transparência defendida publicamente pela tutela, espero que o controlo rigoroso da assiduidade, quando introduzido, seja para todos(!) e que o Conselho de Administração, Direcção Clínica, Direcção de Enfermagem e todas as restantes chefias, queiram ser os primeiros a dar o exemplo e a fazerem o controlo biométrico nos mesmos postos que estão destinados aos restantes funcionários, à vista de todos, para assim todos podermos confirmar que os rumores que circulam pelos corredores do hospital são completamente infundados. Chama-se a isto “liderar pelo exemplo” e o exemplo que é dado por tudo o que é “governo” são as 35 horas, escusam-se “negociações” e “autorizações” para o SESARAM. - Em relação ao Hospital Dr. Nélio Mendonça ser identificado nas suas paredes apenas como “Hospital Central do Funchal”, relembro que o Dr. Nélio Mendonça foi o “pai” do Serviço Regional de Saúde e, ao contrário de outros colegas, foi um médico respeitadíssimo pelos seus pares e pacientes, um político de enorme categoria e mérito e ainda um grande dirigente desportivo. A atribuição do seu nome ao então Hospital Central do Funchal foi aceite, pela esmagadora maioria da população e profissionais de saúde, como sendo justa e um sinal de reconhecimento da Região pelo seu trabalho e obra. O Dr. Nélio Mendonça é respeitado e recordado por tudo aquilo que fez de bom em beneficio da nossa terra. Outros serão lembrados e responsabilizados apenas pelas suas asneiras, pelas perseguições que fizeram, pelas más opções que prejudicaram a saúde de muitas pessoas, pelas obras mal feitas e pelos muitos milhões em calotes que irão deixar para pagar. Nunca serão dignos de ter a honra de ver o seu nome ser atribuído a um Hospital Central. Para esses, o seu nome ficará para sempre associado a “favela”, “anexos” e “remendos”. O Hospital Dr. Nélio Mendonça, todo o Serviço de Saúde, não pode estar à mercê dos caprichos ilógicos de quem claramente não percebe o âmbito das suas funções e que, parecendo que faz tudo, na verdade não faz nada de jeito. A memória e obra do Dr. Nélio Mendonça merece mais respeito, os profissionais de saúde merecem mais consideração e melhores condições de trabalho e os madeirenses merecem uma Saúde melhor, com menos “marketing” e mais qualidade acreditada e certificada na prestação de cuidados de saúde. “À medida que os crimes se acumulam, eles tornam-se invisíveis.” - Bertolt Brecht

Duarte Nuno Dória Gestor