O cérebro da bola vai fazer dois anos quarta-feira, dia 15. Entendo, lucidamente, que teve o seu tempo, contínuo e indefinido, sem se confundir com a “definição da angústia” de Miguel Torga. E a ansiedade (curiosamente, o primeiro livro de poemas deste escritor transmontano, em 1928) que, nervosamente, nasce quando nos debruçamos sobre uma folha em branco, desassossegados, correndo contra o tempo?
Tal qual Carlos Drummond de Andrade, acredito que “o tempo é, para sempre”. Porém, a despedida nem sempre é para sempre; é um adeus; um até qualquer dia. Não sei, afinal, se “a tempo entrei no tempo” como Vitorino Nemésio.
Releio que o jogo começa quando o jogo acaba; nunca quando o árbitro apita. Por isso, não há um momento que represente, objetivamente, o princípio e o fim. Aprendi, com Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), que “novo inverno após novo outono volve”.
Uma bola que, rixosamente, se rasga ao meio não gera só duas metades; destrói, amargamente, o sonho de uma criança. Há muito, Francis Bacon observou que “todas as cores se misturam no escuro”. (Tamanha é a diferença entre certeza e verdade!)
O jornalista do desporto e o jornalista da política – quer no estádio de futebol quer no palácio do governo – pisam o mesmo terreno, escorregadio e acidentado, onde cada vez mais se misturam, perigosamente, notícia e espetáculo. É um desafio de prognóstico difícil, que se disputa, com evidente acidez, entre a maioridade e a menoridade da informação desportiva, sob a arbitragem do grande jornalismo, supostamente isenta.
A que conclusões poderemos, verdadeiramente, chegar no planeta do futebol que gira à volta da doutrina do poder incontornável de uma bola? Se habitualmente, para evitar-se qualquer mal-entendido, nada se confirma e nada se desmente, a resposta, invariavelmente, é - a todas e a nenhumas.
Quando Alice perguntou ao Coelho “quanto tempo dura o eterno?”, ele respondeu-lhe: “às vezes apenas um segundo”. Sem nada ter a ver com a medida do tempo, na obra clássica de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), o cérebro da bola, sem hesitar um segundo, entendeu que teve o seu tempo.
Juvenal Xavier