
É frequente ouvir-se aquele chavão de que as multas que se pagam à polícia, por infracções cometidas na estrada, são para a PSP encher a barriga ou para os polícias andarem a desterrar em caprichos de alta cilindrada para perseguir e andar a atazanar o juízo de cidadãos mais ou menos honestos e cumpridores que andam sobre tapetes de alcatrão de pé mais ou menos pesado, com mais ou menos habilitações para conduzir sucatas ou garrafões sobre quatro rodas, pondo em risco de vida todos os que se lhes cruzam.
É bom sublinhar, para que tal fique claro, que na Madeira, a PSP tal como a GNR, não recebem nem beneficiam de um cêntimo das multas que são pagas em coimas, ao contrário do que seria natural e lógico. Ao contrário, aliás, do que acontece no Continente e nos Açores. Não faz sentido que a receita das coimas pagas pelos madeirenses revertam em cerca de metade para todas as entidades fiscalizadoras e autuantes à excepção das forças de segurança, tratadas pelo Governo da Madeira como galinhas poedeiras no galinheiro do vizinho que vai limpando a porcaria, repondo a água e pagando o milho em grão, que os ovos todos sabem para quem são. A fábula até teria piada se não se estivesse a brincar com a segurança pública.
Os direitos dos madeirenses não podem ser moeda de troca em guerrinhas provincianas de quezília política. Mas foi isso que Alberto João Jardim fez depois de José Sócrates ter fechado a torneira das Finanças Regionais: o guloso Executivo madeirense decidiu que já não vai dividir mais o bolo das multas do trânsito com a PSP e com a GNR e vai comê-lo todo sozinho.Há seis anos que se vê emagrecer a capacidade operacional de resposta das forças de segurança sem que se vislumbre qualquer raio de luz sobre para onde vão aqueles 2,5 milhões de euros que pagamos todos os anos em multas. Ora, se a receita não reverte para renovar os meios e os equipamentos das nossas polícias, em que buraco anda Jardim a meter o dinheiro por nós pago?
Esta estratégia sovina inspirada numa esperteza saloia primitiva - mais característica de uma sociedade de sobrevivência do que de um burgo em esbanjamento - envergonha-me enquanto cidadão desta terra. Além de irresponsável, corrobora aquela tese por vezes injusta, apontada por muitos portugueses que acusam a Madeira de andar a viver à custa da República. Então, como se explica que todos os portugueses paguem os custos de operação e de funcionamento da PSP e da GNR na Madeira, que paguem os salários dos polícias e dos guardas, que paguem as despesas de manutenção dos comandos e esquadras, mas que esqueçam lá o dinheirinho das multas porque isso já é ‘filé mignon’ para a espetada do insaciável carnívoro, o tal Governo que abomina “herbívoros que resolvem gritar"? Como se explica que o chefe do Executivo madeirense ande protegido por guarda-costas do corpo da PSP que até lhe garante livre trânsito e tolerância total aos excessos alcoólicos das suas festas partidárias mas não está minimamente interessado em devolver um cêntimo daquilo que vai buscar em multas pagas e que saem de bolsos dos outros? Onde andam os valores da nossa insularidade? Como podemos ser autónomos se somos comandados por um pedinte prepotente?