É um ritual que cumpro sempre que venho a Lisboa. Sento-me na escadaria que dá acesso ao Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico, percorrendo com a vista a Alameda que se estende à minha frente, repousando finalmente o olhar na Fonte Luminosa. E depois vão surgindo as recordações, das horas que passei naquelas mesmas escadas, naqueles mesmos degraus amaciados por tantos, ora exultando por uma nota ou por um amor descoberto, ora descontraindo antes de um exame, ou mesmo consumindo-me ante a dimensão do saber exigido.
Desta vez, a caminho do meu local de peregrinação, cruzei-me com um enorme grupo de estudantes do Técnico, a maioria caloiros que, de copo de cerveja na mão, entoavam cânticos universitários, e não pude evitar uma certa nostalgia. Enquanto me misturava na multidão, olhava para estas caras, cheias de sonhos e projectos e expectativas e revia-me naquele mesmo papel, há mais de duas décadas atrás. Sim, foi um período fascinante. Foi o tempo da perca da inocência, mas também o do fazer-se homem.
Foi também naquele ambiente que o impossível se revelou como uma construção mental, cuja materialização é directamente proporcional à crença nesse mesmo conceito. E, claro está, qual face da mesma moeda, o oposto também provou constituir uma verdade insofismável.
Ali sentado, todas estas memórias imergiram à superfície. O arrepio que a nortada de fim de tarde provocou, deram um rumo diferente ao fluxo de pensamentos e reconstruí, mentalmente, a complexa simbiose entre a vida académica e as minhas deambulações pelos mares desse mundo.
Duas actividades aparentemente antagónicas, complementaram-se, fazendo com que, durante aqueles anos, verdadeiros milagres ocorressem.
Foi, acima de tudo, um privilégio. Sim, até porque em termos práticos, como nos dizia um professor em jeito de despedida: “ Não tenham ilusões em relação ao que aqui aprenderam. De pouco vos servirá. Mas estão aptos a aprender o que quer que seja!” E lá fomos nós, conquistar mundos e mares...
Felicidades para os que agora iniciam a sua aventura universitária.
João Rodrigues