É comum identificar a consciência como a capacidade imediata do sujeito ter a a percepção do que vivência, seja dentro ou fora dele. A consciência, alojada na mente, será como uma linha contínua quando em actividade e por oposição será uma linha ausente (intermitente?) quando em modo de inconsciência.

A consciência capta, filtra, o que lhe chega através, seja dos sentidos, seja da inteligência que compõe o processo cognitivo? Mas... e se o que ela recebe, intercepta, for “uma realidade ilusória”, sendo a “verdadeira realidade” algo que está para além do que ela capta, atendendo a que a sua formação é fortemente e desde cedo, induzida e formatada para “acreditar” nesse modelo ilusório e nesse sentido em potência, a consciência poderá alcançar a realidade, mas por via de uma exploração ainda sofrível e deformada não ultrapassa, ainda, a “realidade ilusória”. É tema da alegoria da caverna de Platão. O filme Matrix, dirigido pelos irmãos Wachowski, também gira em redor desta possibilidade e se lhe retirarmos a dimensão do fantástico sempre presente na sétima arte, podemos encetar algumas reflexões que, certamente, auxiliarão na procura de respostas.

O facto de o ser humano ter desenvolvido a capacidade de transcender o seu ambiente, elevou-o (?) sobre a natureza, podendo mesmo, em certa medida recriá-la e dominá-la (?). Mas este seu “dom” é (será?) ao mesmo tempo a sua condenação. Por outras palavras, o ser humano ter-se-á constituído como anomalia da natureza, já que ao tomar consciência de si, passa não só a saber da aleatoriedade da sua existência, mas também da limitação de sua vida. Apesar de ainda ser parte da natureza, terá já perdido a genuinidade que a ela o ligava e a harmonia entre ambos está (estará?) para sempre perdida. As consequências deste facto são imprevisíveis. Eufemisticamente, chamam-lhe progresso...

Fernando Rodrigues