Ao analisarmos a história Europeia nos últimos 70 anos verificamos que a actual crise tem génese, evolução e resultados previsíveis. A Europa emergente da Segunda Grande Guerra compreende que a Paz duradoura só é sustentável se envolver as Nações beligerantes num projecto económico e criador de sinergias.
Impulsionados pelo Plano Marshall e alicerçados na CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), em 1957 seis Países subscritores do Tratado de Roma fazem nascer o projecto unificador da Europa, a CEE.
A expansão económica da CEE nas décadas de 50 e 60, permite o surgimento do “Estado Social” (com políticas de protecção e desenvolvimento social) e o alargamento a novos membros: 1º fase - Reino Unido, Irlanda e Dinamarca (1973), 2º fase - Grécia (1981), Portugal e Espanha (1986). O alargamento aos Países do Sul é promovido pela RFA (República Federal da Alemanha, País fundador), com a intenção final de facilitar e financiar a respectiva reunificação Alemã, RFA-RDA (que se concretiza em 1990).
Temendo a reunificação e hegemonia Alemãs, a França para controlar e ter acesso aos recursos financeiros da Alemanha reunificada, impõe a adesão desta ao projecto da União Europeia (UE) e da Moeda Única com a subscrição do Tratado de Maastricht, em 1993.
A aceitação ligeira e ingénua da exigência Germânica: Moeda Única associada à política monetária do Marco (preços estáveis e moeda forte), potenciou as condicionantes da competitividade e, pela primeira vez no pós guerra, a Europa dividiu-se geograficamente entre o Norte religiosamente Protestante (valorizador do mérito, do conhecimento, da excelência e intolerante à falha moral) e o Sul Católico (mais permissivo).
Países do Sul, tal como Portugal, permitiram-se perder o comboio das reformas estruturais, beneficiaram da competitividade do Norte no acesso ao crédito externo barato mascarando crescimentos económicos anémicos, mantiveram o status quo de modelos socioeconómicos insustentáveis, dificuldades organizacionais crónicas e endividamentos externos galopantes.
Pós Maastricht o Norte e o Sul divergiram no esforço e contributo para o projecto da UE, motivando a actual ausência de solidariedade da crise Europeia.
A evolução da economia mundial em sistema de vasos comunicantes (com forte fluxo e geração de capitais no Oriente), o Terrorismo Internacional a condicionar a política monetária expansionista dos EUA, a respectiva bolha imobiliária decorrente da expansão monetária e o modelo de securitização de capitais tóxicos que contagiaram fortemente a Europa, culminaram em 2007, na actual grave crise das economias Ocidentais.
Os desafios apresentados a uma União Europeia heterogénea na resiliência e competitividade económicas, ditaram que tal como a Grécia em 2006 e Irlanda em 2010, Portugal em efectiva banca rota em 2011 tenha sido resgatado pela Troika (BCE, CE e FMI).
Simplificadamente o que distingue os Povos do Norte dos do Sul da Europa, sendo Portugal um exemplo paradigmático de País do Sul, são as disfunções organizacionais em que o Estado governa para dentro de si próprio e para minorias privilegiadas (que vivem e multiplicam-se apoiadas nesse mesmo Estado) através do poder político personalizado que a todo o custo tenta perpetuar-se no tempo, constringindo a competitividade. Se o desafio competitivo é enorme para o País, maior será para as organizações administrativas de regime especial, nomeadamente as Regiões Autónomas em que só deveria haver espaço para o valor acrescentado, excelência e eficiência governativas.
Na Grécia Antiga já havia sido descrita a disfunção organizacional que afecta actualmente os Estados do Sul da Europa, onde o poder do Estado mais influencia e condiciona a vivência dos Povos. Designaram-na de SÍNROME DE HUBRIS.
Em definição, os “Pais da Democracia” diagnosticaram como síndrome de Hybris (síndrome de Hubris) o exercício do poder político de forma irracional, com Até (cegueira de razão) presunçoso, arrogante, insolente, sem auto-controlo, alheado da realidade e distante do Povo que devia servir e que ofendia a Metron (ordem social).
Em terras Lusas “o nosso Fado” consentiu políticos de “má moeda”, verdadeiros dinossauros do poder, homens infectados e infectantes de “Húbris”, entregaram o País e Regiões de regime especial à voragem dos “oligarcas regionais”, mercados especulativos (a maioria em sectores protegidos da concorrência), à banca irresponsável (que estimulou o gigantismo da dívida soberana), às PPP’s e Sector Empresarial do Estado, com rendas excessivas: na energia, rede viária e transportes, que nos asfixiam com contratos leoninos “blindados” pelo serviço da dívida, maioritariamente detida pela banca estrangeira.
E foi também esta a Pátria da expansão e achamentos ultramarinos, precursora da Globalização, que sempre soube ultrapassar as dificuldades à sua soberania.
Apesar dos desafios e riscos tremendos que a nossa Nação enfrenta, confio nas virtudes deste Povo e aguardo que a actual crise Europeia e Nacional faça revelar também hoje uma “Ínclita Geração”, que conduza o País à prosperidade e sustentabilidade.
Que a necessidade do momento imponha uma profunda e consequente revolução de mentalidades, fazendo-nos evoluir para uma Sociedade mais responsável e exigente, erradicando em definitivo esta doença Social e disfunção organizacional que é o síndrome de Hubris.
O actual desejo colectivo de um novo ciclo político é já um valoroso sinal dessa mudança. A Esperança guia-me.
António Miguel Vieira