O fumo cobriu o céu de cinzento. Instalou-se por cima da cidade. Apontei-o, impressionada. “Que horror!”, exclamou um amigo meu, sentado de frente para a janela. Calei-me. Aquele ar sufocante, que nem deixava ver com perfeita nitidez, era consistente com o meu estado de espírito. Familiares enviavam fotos pelo telemóvel – banhos no mar, “panelos” na serra, noites de arraial na ilha. E eu a tentar trabalhar, cada vez com mais dificuldade, cada vez com menor gosto pelo resultado. O que seria aquilo? Cansaço? De quê? Do trabalho ou da incerteza, do ruir de tantos mundos? Tinha de parar. Parei. Parei este sábado, 31 de Agosto. Sentada de frente para a mesma janela, com o mesmo tom no céu, tomo um café e leio o Público. Lá está a Serra do Caramulo, outrora um pulmão do país, feita terra queimada. E eis Francisco Gomes da Silva, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, a desresponsabilizar-se. A tragédia prossegue, ininterrupta. Vou ouvir o “Casulo”, o último álbum de Márcia. Ela fê-lo para “dar ânimo e vontade às pessoas, fazê-las descansar, sossegar”. Descobria-a no Ípsilon, há uns meses, num texto do Gonçalo Frota, a dizer isto: “Há esta pressão da palavra horrorosa - crise - que nos está constantemente a empurrar para baixo. Acha-se que tem de se pactuar com essa palavra e já não se pode ser feliz porque pode estar alguém a ver. Esse é o mais atroz dos crimes que este governo está a fazer, a injectar-nos essa palavra como se cada português tivesse essa missão de ser miserável.”
Ana Cristina Pereira Jornalista do Público