Estes são tempos marcadamente de regresso. É tempo de terminar o período de descanso, as chamadas “férias” e voltar à normalidade do quotidiano. Voltar a uma parte importante da nossa vida. Certamente ainda muitos perguntarão: ouvi alguém falar em férias, e as minhas férias? É verdade, dirão outros, passa uma eternidade sem que aconteça nada nas vossas vidas, as teias de aranha insistem em permanecer no quotidiano e apesar dos planos sucessivos para fazer férias, estas não se concretizam. E todos, facilmente, encontram razões para justificar essa situação. Porém, para muitos, passar férias será apenas fazer as mesmas coisas numa casa diferente, num local distinto, mas tudo bem, o que importa é estar lá e estar bem. Para outros ficam as saudades de viajar. As saudades imensas de sentir aquele frémito nervoso no aeroporto, de se deter em cada detalhe da sua própria personalidade que, por um medo indiscritível, julga sempre que não regressará da viagem de avião. As saudades imensas de sentir o pulso a uma cidade desconhecida e descobrí-la, cheirá-la, como apenas se cheiram as cidades que não se conhecem. As saudades de sentir profunda emoção e contentamento intelectual ao avistar um qualquer detalhe na paisagem que sufoca a alma de prazer. As saudades de sentirmo-nos pequenos e nada importantes e de desaparecer nas vidas dos que ali vivem habitualmente. As saudades de experimentar as pequenas riquezas que constituem as rotinas daqueles que ali vivem. As saudades do regresso e as saudades que ficarão para sempre, de cada viagem, de cada detalhe imortalizado nas fotografias que se revêm vezes sem conta. No entanto, quantas vezes, é necessário perdoarmo-nos a nós mesmos quando sentimos que não houve verdadeiramente férias, apesar de termos saído do sítio do costume e quebrarmos as nossas rotinas quotidianas. Perdoarmo-nos a nós mesmos quando sentimos culpa por não termos sentido que tivesse havido férias. Perdoarmo-nos a nós mesmos por sentirmos coisas menos positivas, apesar de ser suposto sentir alegria constante e satisfação absoluta. Pois é, a experiência das férias é tão necessária como o regresso à nossa vida “normal”. Sabemos que o cansaço, muitas vezes, rouba-nos aquela parte do “coração” que vê e sente. Torna-o apenas num músculo automático e cansado, limitando-se a cumprir a tarefa de impulsionar sangue sem parar. O coração comporta a nobre tarefa de nos fazer humanos, de destacar a humanidade da nossa natureza, de não nos deixar morrer, de não parar nunca, mesmo quando dormimos, sofremos, choramos, rimos, mas esquecemo-nos dele demasiadas vezes. Só que, de tempos a tempos, precisamos de, metaforicamente falando, concedermos, a nós próprios, a honra de verdadeiramente o sentirmos. Nesse tempo (de férias) os ruídos e o cansaço deixam de ter importância e conseguimos sentir as coisas como deveriam ser sempre. Conseguimos ouvir o nosso coração. Assim, neste regresso ao ritmo normal de programas, agendas, actividades, vamos substituindo sons, cheiros, até o que temos vestido e calçado e todos os nossos sentidos têm que de novo adaptar-se. É, no fundo, o regresso ao essencial, ao fundo das coisas, à vida como ela era e encontrar aí também a nossa felicidade. Como ajuda para o regresso que todos relizamos, deixo as palavras do poema de Affonso Romano de Sant’anna: “Como voltar? Depois de Itaca, das sereias, dos ciclopes, de tanto assombro, de tanto sangue na espada? Como voltar? Se aquele que partiu, partiu-se e voltará com os fragmentos do excesso? Não há retorno. Há outra viagem diariamente urdida dentro da viagem antiga. Embora o caminho da volta seja percorrido, ninguém retorna. Apenas volta a viajar no espaço anterior estranhamente familiar. Como se o regresso fosse acréscimo e o viajante descobrisse que é atrás que está a fonte e na alvorada o horizonte. Não há retorno. Há o contorno do próprio eixo, o tempestuoso périplo do ego, um diálogo de ecos como quem tenta encaixar diferentes rostos no mesmo espelho. Por isto, o retorno inelutável é perigoso, exige mais perícia que na partida. Mais destreza que nos conflitos pois o risco é naufragar exatamente quando chegar ao porto.”

Marco Gomes Director Pedagógico da APEL