Lisboa, sábado 24 de agosto de 2013. Penúltimo dia para ver “A maior mostra individual de Joana Vasconcelos nos aposentos reais do Palácio Nacional da Ajuda” assim se anuncia no desdobrável da exposição. Não consegui escapar à insistente publicidade da coisa! A visita foi em família. Sabíamos que o horário de abertura era alargado nesse fim-de-semana. E nenhuma portuguesa poderia perder a oportunidade para fruir a arte da artista na moda! Chegados à fila para entrar - já munidos do respetivo bilhete-família - eram umas 13:30 e... cerca de duas horas e meia duma longa espiral de paciência-em-pé, antes que as portas do Palácio se abrissem. Depois, qual gado a entrar para um curral, lá nos encerraram no curro (perdão, num hall) e nos acolheram e lá nos deram todas as instruções à fruição artística, num fluente português... e que ocupássemos todos os espaços para permitir o esvaziamento do curro para novo lote a... Uma hora depois e muitos metros de passadeira vermelha calcorreados, estava vista a exibição! Foi um bom exercício aquele, para me lembrar o país que habito e a gente culta que se move... mas na verdade, bem que gostaria de viver já num outro Estado de cultura e civilidade. Dizem-nos os media que foi a exposição mais vista de sempre, em Portugal. Trabalhos de 12 anos, 38 peças, a maior parte delas já familiares porque bem reproduzidas em catálogos e afins. É a consagração da artista pelas instâncias culturais do estado dominante? É apenas uma grande campanha de marketing de uma pretensa marca-portuguesa? Saí decepcionado. Nem 1 pingo de emoção para equilibrar com os muitos de suor. O discurso e a opulência não me convencem, embora saiba que, noutras circunstâncias de fruição e de exposição das obras e de iluminação das salas, talvez alguma das peças me tivesse agarrado os sentidos.

Carlos Soares Cooperante da Cooperativa “Espaço às Artes – Cultura Ponto Zero”