
O Parlamento foi de férias e ninguém deu por falta. Terminou a zombaria, os concursos de decibéis a vociferar no pedestal da calúnia. Acabou a pirataria de ideias, a disputa da demagogia. Foi de férias a fuga para o passado quando chega ao presente a decisão do futuro de todos. Foi de férias a pressa em agendar assuntos que não nos levam a lado nenhum. E vão de férias aqueles inconclusivos debates em contra-relógio, intercalados por meia dúzia de diplomas expedidos para São Bento para que Lisboa resolva e faça o favor de pagar toda a Autonomia que perdemos.
São férias merecidas, sim senhor. Os nossos representantes na Casa da Democracia dividem-se entre os que estão saturados e os que estão capturados. E isso cansa. Cansa-nos! Uns fazem do hemiciclo uma esfera de morte circense para exibir ao mundo os palhaços residentes que por cá andam há décadas. Outros ombreiam conveniências ocultas contra o interesse público. E os restantes tentam destapar o fingimento e a leviandade com que a maioria mascara a obtenção de vantagens latentes em vez de proveitos colectivos usando argumentos falaciosos, rebuscados e requentados à medida dos apetites vorazes.
Servirão as férias para mudar alguma coisa? A Madeira continuará a ser uma excepção à lei das incompatibilidades ou o assunto esgotar-se-á após o voto cair nas urnas a 29 de Setembro? O nosso Parlamento continuará também a pactuar com a vergonhosa acumulação de pensões com salários de que usufruem os titulares de cargos políticos, insistindo em privilegiar os coveiros em detrimento do povo que os elegeu? O órgão fiscalizador do governo regional manterá incólume aquele excepcional regime de benesses a essa minoria reinante enquanto prepara o corte de 10% nas reformas acima de 600 euros, 18 vezes menos do que esses abastados, sob o pretexto de reduzir despesa pública? Que moral têm para exigir mais sacrifícios?
Passou um ano par(a)lamentar e os eleitos vão de férias descansar as costas, desgastados pela vénia e pelo beija-mão. Dormentes de se vergarem ao único e importante chefe que governa alheado do mundo sobre o qual caminha, espezinhando a realidade com os próprios pés. Têm o merecido descanso, sim senhor, após o frete de um domingo inteiro a aplaudir discursos ocos para arrebanhar não se sabe quem, através de pregações no planalto de um laranja lamacento, hasteando bandeiras com setas apontando para o abismo. Para quem foge do pecado de vir a ser um “vira-casacas” nesta eterna quaresma jardinista, pode dar um jeitão ter dois meses de férias para descansar as costas. Podem fugir da realidade, mas não se podem esconder.