São já tantas as particularidades desta terra que começo a preocupar-me com a forma como vou explicar isto daqui a 20 anos. Da mesma forma que hoje parecem perfeitamente naturais alguns comportamentos que no início dos anos 90 do século passado eram excepções, também, no início dos anos 30, quem se der ao trabalho de olhar para trás vai pensar que somos todos, ou pelo menos a maioria dos que fazem a sociedade de agora, uma cambada de pacóvios. E terão razão. Ao contrário da natural mudança de hábitos, facilmente explicável pela evolução tecnológica e uma educação mais cuidada, as questões comportamentais revelam uma maior dificuldade de explicação. Ou seja, é relativamente fácil falar sobre a evolução dos telemóveis e das redes sociais, por exemplo, mas é extremamente difícil traduzir o tempo que vivemos. E este tempo, com o de outras gerações, é matreiro. Como se explicará em 2033 que em 2013 a Madeira era governada por um presidente completamente ausente da realidade? Que se dirá do facto de sermos das poucas regiões do mundo onde o chefe do Governo tira em média quase uma semana por mês para os seus passeios por essa Europa fora? E ainda mais umas semanas numa casa paga por nós no Porto Santo? Como vamos explicar, sem que os mais novos se escangalhem a rir à nossa frente, que o mesmo presidente que endividou a Madeira até ao tutano, assinou um plano que nos obriga a pagar mais impostos, a cortar na administração pública, a pagar pela alimentação dos nossos filhos nas escolas, a pagar mais taxas na saúde, a pagar mais impostos sobre bens imóveis e móveis e outras tantas coisas, como se explicará, dizia eu, que esse mesmo chefe se reserve para si o direito de acumular vencimento com a reforma que recebe por algo que praticamente nunca fez na vida? E como vamos dizer que o Governo apenas dê uns míseros 150 mil euros para recuperar tanto estrago dos incêndios do Monte e tenha dinheiro a rodos para gastar num jornal pessoal de propaganda ridícula? E que se dirá de tanto dinheiro mal gasto, de tanta prepotência e abuso, de tanta falta de respeito como ainda esta semana se assistiu no Dia da Cidade? Receio muito que daqui a 20 anos não seja assim tão fácil prestar contas do forrobodó que se vive nesta altura. E até temo ser confrontado, e com razão, por aqueles que me vão perguntar: e tu, onde estavas tu nessa altura? Em minha defesa direi que estava aqui, que escrevia estas coisas que o poder não gosta e que fazia a minha parte. Talvez até diga que a culpa era dos outros, que não faziam nada. A verdade é que a culpa é de quase todos. Até, de certa forma, dos que dizem e escrevem e criticam muito. Mas é incomparavelmente maior a responsabilidade dos que vivem de perna traçada e mãos nos bolsos. A verdade, por muito que nos custe, é que a culpa não é só da criatura que já passou todos os limites do razoável, todas as linhas vermelhas. É também dos criadores. E esses são a maioria. São os que aplaudem convictamente e os que discordam mas dão palmas à mesma. São os que apoiam por mero interesse e os que apenas deixam andar. São que olham com a maior naturalidade para os rios de dinheiro que agora se gasta na conclusão de obras apenas porque se aproximam eleições. Em última análise, a culpa não é só de quem se sente mandatado para fazer as coisas que lhe apetece, é também quem lhe permite que as faça.