As recentes (boas) notícias sobre o que parece ser uma inversão do ciclo económico fazem-me pensar se aprendemos alguma coisa com esta crise. As atitudes otimistas, cautelosas, pessimistas ou eufóricas são apenas a confirmação que a nossa governação não tem grande credibilidade. Fizemos imensos disparates sem pensar nas consequências, aplicamos um remédio sem compreender as implicações e agora naturalmente esperamos um resultado sem sabermos se é fruto do acaso. Não aprendemos nada. Enquanto políticos e comentadores fazem previsões todos os dias na esperança que alguma se acabe por confirmar, o país real fica suspenso como quem espera pelo resultado do totoloto. Será o princípio do fim da crise? Será que afinal a troika tinha razão? Será apenas um fogacho? Entretanto o diabo deixou de se chamar Sócrates, que afinal até fez uma coisas acertadas, e passou a chamar-se Coelho/Portas, que sempre soubemos nunca prestaram para nada... bandidos! Voltamos entretidos a este exercício de esquizofrenia coletiva que resulta de pensarmos que tudo acontece por acaso ou intervenção divina. Não aprendemos nada. Nem vale a pena dizer que uma inversão da tendência de crescimento económico é muito diferente de recuperação. Quando se está a perder 10€ todos os dias durante dois anos, não se recupera porque se ganham 5€ num dia. Qualquer recuperação vai demorar vários anos e estará dependente de uma tendência de crescimento económico sustentado. Vai ser preciso ganhar 20€ por dia para recuperar num ano o que perdemos em dois. Valerá menos a pena falar em convergência com os nossos parceiros com os quais pretendemos competir. Se eles cresceram 5€ por dia quando nós estávamos a perder 10€, para convergirmos façam as contas e vejam quanto tempo será necessário para recuperarmos o atraso. Não aprendemos nada. O nosso país nunca teve uma estratégia de desenvolvimento económico consistente que pudesse conduzir a uma mudança sustentada do nosso futuro. O governo anterior tinha alguma estratégia assente numa aposta na ciência, nas energias alternativas, nas tecnologias e em alguns mercados com crescimento potencial (veja-se o caso da Venezuela). Infelizmente muito do que de positivo tinha sido lançado foi desprezado. Em vez de corrigir o que estava mal e continuar o que estava bem, destrui-se tudo. É impossível uma estratégia resultar se a primeira coisa que cada governo faz é mudar tudo. Passamos da ciência, tecnologia e energia para o empreendedorismo dos pastéis de nata em menos de cinco anos e querem resultados. Não aprendemos nada. O anterior governo fez muitas asneiras incluindo aumentar os funcionários públicos um ano antes das eleições com sinais claros de crise à porta. O atual governo agarrou-se à cartilha da austeridade seguindo a célebre estratégia do bom aluno. O doente foi definhando a cada dose da medicação enquanto os verdadeiros sintomas da doença eram mascarados. A metáfora médica parece-me bem ajustada. Portugal teve um ataque cardíaco porque comia mal, não fazia exercício e fumava exageradamente. O médico receitou uma dose terapêutica de aspirina, uma dieta, exercício físico e mandou cortar com o tabaco e o álcool. O enfermeiro triplicou a dose de aspirina e proibiu de forma autoritária o tabaco e o álcool. A dieta e o exercício ficaram para mais tarde. Na mudança de turno para a próxima equipa médica o doente vai tomar menos aspirina a horas diferentes e com um piscar de olho ser autorizado a tomar um copo de vinho e um cigarrinho ao fim de semana... até ao próximo ataque cardíaco. Não aprendemos nada. Não é preciso ser economista para perceber que um país mergulhado numa profunda crise com vários trimestres de crescimento negativo vai acabar por inverter essa tendência. Mesmo que seja governado pelo Rato Mickey, basta que o tombo seja suficientemente grande. Escrevi várias vezes que temos que mudar de vida para termos alguma esperança e não desperdiçarmos mais uma crise. Pois bem quase todas as pessoas que conheço mudaram efetivamente de vida. Tenho amigos que foram despedidos, que tiveram que entregar a casa, que mudar a educação dos filhos, que cortar em imensas coisas a que estavam habituados e nem todas eram supérfluas. Assisto à angustia da geração dos meus pais que fez um guerra colonial e uma revolução e agora passados tantos anos de descontos vê as suas pensões cortadas e teme pelo futuro quando devia estar a gozar tranquilamente a reforma. Vejo várias gerações de alunos desmotivados e sem perspectiva a não ser o desemprego ou a emigração. Pois bem se muitos portugueses mudaram efetivamente de vida está na altura do país mudar de vida. Mas para isso é preciso deixarmos de pensar que tudo é fruto do acaso e/ou pode acontecer com gente sem qualidade. Para termos esperança temos que aprender algumas lições muito simples: 1. A política é demasiado importante para estar entregue a pessoas sem qualidade. Todos os exemplos de algum sucesso em Portugal resultaram da visão e da liderança de pessoas de qualidade. Dois exemplos recentes que me parecem incontestáveis: Ciência e Tecnologia com Mariano Gago, Impostos e agora Saúde com Paulo Macedo. O que é que estas duas pessoas têm em comum. São pessoas com currículo impecável feito fora da política. São pessoas de carácter, experientes com sentido do serviço público e mais que fazer na vida. É possível fazer reformas importantes com resultados sem estardalhaço político basta termos pessoas de qualidade. 2. Os resultados só aparecem quando existe uma visão estratégica coerente e consistente de longo prazo. Esta visão tem que ser definida e assimilada para além dos ciclos políticos e eleitorais. Não podemos esperar resultados quando mudamos sucessivamente de rumo. Muito menos com o argumento que não temos dinheiro. É precisamente por termos poucos recursos que não podemos andar sempre a fazer mudanças, de governo, de ministérios, de orgânicas, de políticas, de regras e legislação. Portugal tem que recuperar a agricultura e as pescas, tem que ter um sector industrial competitivo e inovador e tem que diferenciar os seus serviços em particular o turismo. É simples, basta mais uma vez ter pessoas de qualidade nos sítios certos. 3. A reforma do estado tem que acontecer de forma definitiva através da redução das despesas com pessoal. Mas não pode ser com cortes nos salários que rapidamente regressam ao normal ao sabor dos ciclos políticos. Tem que ser através de reduções seletivas de funcionários e serviços. As pessoas devem ser protegidas e compensadas mas pensar que uma reforma acontece sem cortes definitivos é um embuste para todos. A começar pelos trabalhadores do sector privado que acabam por absorver grande parte dos efeitos da crise através do desemprego. É duro mas tem que ser feito caso contrário nunca teremos uma solução sustentável para o célebre monstro. E não é preciso fazer mais estudos, basta aplicar de forma corajosa e sensata o que todos já sabem. Mas enfim... isso agora pouco importa. Temos eleições autárquicas à porta e os políticos já estão suficientemente baralhados sem saberem quem apoiar e quem ignorar. Todos os que apostaram no fim do Passos/Portas agora devem estar a fazer contas complicadas. A vida de vira-casacas deve ser muito difícil. Mas a nossa vida vai ser ainda mais difícil se não aprendermos estas lições de uma vez por todas.