Assinalam-se agora os últimos 100 anos do porto do Funchal com muitos depoimentos ainda que - em toda esta informação que vem sendo fornecida, em toda a história que vem sendo contada a propósito desta data que, em rigor, se reporta à criação da Junta Autónoma das Obras do Porto - um 'pormenor' pareça estar a escapar.
Respeita ele ao início dos anos 20 do século passado e ao concurso para «construção dum porto artificial conforme as necessidades do tempo e as exigências do futuro», acompanhada de diversas intervenções na zona ribeirinha da cidade, que foi ganho por uma empresa inglesa reconhecida especialista neste tipo de obras. O que é espantoso é que se levantou uma campanha, pretensamente autonomista, «de oposição a este empreendimento, pretextando megalomania na proporção das obras e antipatriotismo na concessão das mesmas a estrangeiros»; uma campanha de que resultou a anulação do adjudicação em 1928, «não para se construir em novos ou melhores planos um porto, senão para inutilizar o processo em marcha» acabando por não se «dotar o porto do Funchal das obras de que tanto urgia como o futuro demonstrou…». A necessidade destas obras havia já sido salientada em 1885 «não só por necessidade natural contra ventos e temporais dominantes como pela concorrência que lhe faria o projectado porto artificial de Santa Cruz de Tenerife».
Desta total falta de visão da importância e alcance deste empreendimento beneficiou Canárias, onde os portos de Tenerife e Las Palmas foram «construídos e apetrechados à altura das exigências do tempo e da transição da frota mercante no consumo de óleo em vez de carvão»; e mesmo as obras de prolongamento e melhoramento do cais do Funchal executadas até 1939 não foram capazes de «dar ao porto as instalações suficientes nem os abastecimentos necessários à moderna navegação».
Para mim, que não tenho formação em História, ela é especialmente importante porque pode facilitar a compreensão de decisões acertadas ou de erros com impacto significativo. E o que se percebe é que na Madeira - para quem esta infraestrutura era vital para a economia e para a mobilidade das pessoas, e onde os emigrantes assumiam um peso muito significativo - os pretensos autonomistas deitaram fora uma extraordinária oportunidade de afirmar a ilha como um nevrálgico porto geo-estratégico do tráfego marítimo no Atlântico, só porque o concurso fora ganho por ingleses e o projecto era megalómano (curiosamente a mesma Madeira que rejubilaria com o projecto aprovado em 1955, ainda mais megalómano).
Fica a 'raiva aos ingleses', sempre convenientemente alimentada por interesses instalados que viam com animosidade indisfarçada as actividades por eles desenvolvidas e que foram em muitos casos de grande importância para a economia regional - no comércio, no turismo, na hotelaria, na cabotagem e até no abastecimento de água e carvão aos navios.
Uma raiva facciosa, alimentada pela mediocridade e por muita inveja, disfarçadas com a permanente apologia do povo superior. Uma raiva estúpida, porque nem sequer consegue compreender o que os fenómenos da migração têm de potencial para a aprendizagem e evolução das sociedades.
E se a História ensina alguma coisa, fácil é perceber que o episódio em que Jardim rasgou o exemplar do DN é só mais uma excrescência jardinista, herdeira de um passado recente. De resto, em 1922 «a política partidária da época» não foi alheia da campanha contra o porto. E hoje, encontre o leitor os herdeiros, na governação actual…
Certo, certo, é que a verdadeira história do porto do Funchal ainda está por contar - não obstante o 'esforço' dos historiadores do regime que curiosamente esquecem este episódio marcante na história do porto e que é, também, parte da nossa história económica.
PS - O leitor poderá encontrar uma descrição mais pormenorizada deste assunto nas «Ilhas de Zargo», Vol. II, 3ª. edição, pps 150 e seguintes, de onde foram retiradas todas as citações. Do seu autor, o Padre Eduardo Pereira, não se questiona, creio, nem a seriedade, nem o rigor.
Violante Saramago Matos