Ligado às guerras, o futebol do pontapé-para-a-frente vai a reboque das conquistas e dos chutos dos conquistadores. Os legionários romanos, após a ocupação da Grécia, trazem-no para a Península e chamam-lhe Haspartum. As Legiões de Júlio César (52 a.C.), invadem as Gálias e o jogo sobrevive na Bretanha e na Normandia com o nome de Chôule ou Soule que se jogava com uma bola cheia de feno ou de farelo. É de supor que Guilherme, O Conquistador, tenha atravessado o Canal da Mancha com a bola na ponta da lança. Onze-contra-onze, e cada um na sua zona, só no século XIX. Então, ganha forma e fama em Cambridge e Oxford. O futebol não é inglês, mas foram os ingleses que disciplinaram o pontapé-de-saída. Desmond Morris conta que «os primitivos Heróis Tribais eram os estudantes ricos das escolas de Eton e Harrow e da Universidade de Oxford. Mas, tudo mudou quando o desporto se profissionalizou. O futebol foi rapidamente engolido pelo mundo industrial da Inglaterra vitoriana. O primeiro conjunto conhecido de regras data de 1815 e foi coligido, em Inglaterra, no Eton College. As principais escolas públicas britânicas elaboraram, na primeira metade do século passado, os seus próprios conjuntos de regras, assistindo-se depois a um esforço de uniformização. Trinta e oito anos depois, o International Board lançava as 14 leis do futebol; estreia-se, em 1875, na Camacha, pela mão do inglês Harry Hinton. Conta-se, em O Século XX do Desporto (A Bola/2000) que «o fascínio do moderno divertimento feneceu quando a bola se desfez, massacrada por milhares de pontapés – e afinal não havia outra. Mas, por via disso, num agora jardim de infância, se colocou uma lápide-legenda que rezava assim: Aqui se praticou futebol pela primeira vez em Portugal». Ernesto José Rodrigues apresenta uma estória diferente: no seminário Desporto e Cultura (Associação de Desportos da Madeira/1997), revelou que «a primeira exibição futebolística terá sido em Cascais, corria Outubro de 1888; formalmente, foi às 13 horas de 22-I-1889, no terreno onde em breve era construída a praça de touros do Campo Pequeno». Já não é a bola de meia, nem a bexiga de porco, nem a cacetada pela medida grossa num encontro de braçais e marinheiros, com regras indefinidas; nem o tempo dos campos quadrados, com uma cerejeira, um choupo, um pinheiro e um salgueiro, em cada canto; nem fado, Fátima e futebol; nem Deus, Pátria e Família.
Juvenal Xavier