Renata Camacho Urbano Tavares Rodrigues morreu. E diríamos: é um homem que morre. Como qualquer outro homem. Mas Urbano Tavares Rodrigues é, sobretudo, um Homem. Cremos que merece o épito com letra maiúscula - aliás, não temos disso a menor dúvida. Porque este escritor, não por causa da escrita, mas pela causa do que trazia no seu interior, no seu espírito, e que exigiu expressão literária, foi um Homem na verdadeira acepção da palavra. Muitos de nós vivemos a nossas vidas sem nos entregarmos, absolutamente, às nossas paixões, sem vivermos verdadeiramente. Vamos, simplesmente deixando passar um dia após o outro. Urbano Tavares Rodrigues não era assim, e é p vida como valor único e supremo, cultivou a sua escritor isso que foi tão importante, e que continuará a sê-lo. Porque, na massa anónima das pessoas que conhecemos ao longo de uma vida, no « continuum » que a mesma percorre até que o frágil fio finalmente se parte, há indivíduos que nos marcam pela presença, pela profundidade e porque, acima de muitos outros, são realmente verdadeiros. Este grande escritor que Portugal agora perdeu, era feito desta massa. Cultou a vida como valor único e supremo, cultivou na sua escrita uma sensibilidade e uma sensualidade especiais, delicadas e dedicadas, explorou conceitos utópicos que, todavia, são o que dá beleza e sentido à própria vida. Por isso a mensagem permanecerá. Morreu o Homem, mas fica-nos o escritor. Durante séculos poderemos folhear um dos seus livros. Podemos buscar neles matéria sobre a qual meditar. Podemos aprender. O mais importante legado que Urbano Tavares Rodrigues nos deixou não será, quiça, a oportunidade de conhecermos uma brilhante Obra, mas o facto de, à luz da sua escrita, podermos aprofundar a nossa própria identidade. A de nos vermos reflectidos perante o pensamento de um homem verdadeiro, na esperança de, um dia, virmos a ser tão verdadeiros como ele. Não é um adeus, só um simples ATÉ JÁ.