Eu gosto de um bom filme, um com uma história que não me entretenha só por força dos efeitos especiais, que também são bemvindos... gosto de muros empedrados, colocados à mão, antigos ou novos, com ervas a crescer nas fendas, não é nada contra um uso moderado do betão... gosto de uma calçada de ladrilhos, a única arte que não me importo de pisar. Gosto de ver uma curva que respeite o contorno de uma montanha, não é nada contra um ou outro túnel como tributo aos interesses e sacrifícios mútuos entre humanos e a natureza. Gosto de comida pouco processada, local, vegetariana, biológica e saudável, mas não resisto a um bom chocolate... Gosto de muitas coisas, e gosto de ter tempo para nada fazer, nada de produtivo, nada que outros considerassem significativo, bem como tempo para o exercício reflexivo de pensar um futuro melhor. Vejo que muitos ocuparam o seu tempo de ócio com a torrente contínua de banalidades e frivolidades televisivas. E aquele tempo para pensarem o futuro também ficou substituido pelas opiniões televisivas dos mesmos de sempre, protagonistas diferentes das mesmas ideias politicas e, não obstante nos terem trazido até esta sociedade em que os valores degeneram, continuam a proclamar estarem de posse de todas as soluções. Tudo foi violado, temos poucos filmes com uma história, demasiados muros de betão, marinas de betão e tuneis de betão que esventram os nossos maciços e nos pesam no bolso. Temos demasiadas pessoas obsecadas com o lado frívolo da vida e anestesiadas pela informação monotónica dos grandes meios de comunicação. A ‘paisagem’ não foi harmonizada, foi transformada à imagem de um ser humano manipulado na sua insaciabilidade. E agora?

Rui Almeida