A rotina tem destas coisas: de tanto ver e ouvir a mesma coisa, o ser humano acaba por aceitar como certo o que muitas vezes não passa de um embuste. Acaba por tomar como verdadeira a mais rasteira mentira. E até vê seriedade onde apenas há calculismo. Por ingenuidade ou comodismo, muita gente de bem é levada a fazer o jogo de quem faz da vida alheia propriedade sua. E assim se completa o círculo, a tal 'rotunda da Autonomia' que muitos madeirenses percorrem há décadas sem perceber que andam às voltas sem sair do mesmo lugar. Todo este ‘paleio’ tem apenas um propósito: alertar os mais incautos para o lodo que vai pintar em tom laranja essas rotundas até às eleições. No partido que ganha sempre, os jogos de bastidores já começaram, as intrigas estão longe do fim, a vitimização está a ser montada. Tudo razoavelmente bem feito de forma a apanhar os ‘patas rapadas’. E esses tanto podem ter a ‘quarta classe do calhau’ como o doutoramento mais importante. Na hora de passar a rasteira há sempre um pé que se deixa ficar. Neste caso, há sempre alguém que desiste. Todo o ‘drama’ que temos assistido nos últimos dias, embrulhado em brigas verdadeiras mas pelos motivos mais falsos que se possam imaginar, não é muito mais do que a estratégia habitual. O que se diz ‘único importante’ procura chamar a si todas as atenções, mesmo fazendo tristes figuras e juntando factos reais com cenas ficcionadas. E até aceita mostrar o medo, que é real, de perder Câmaras e Juntas de Freguesia com encenações burlescas a propósito do que aí virá se se confirmarem as perdas anunciadas. No meio de todo este artificialismo misturado com tensões e ódios reais, resta muito caminho livre para o deslumbramento de uns e o susto de outros. A verdade é que, como se tem visto, essa é a ratoeira perfeita para quem não tem mais nada para oferecer e tem muito a perder. É jogar com o delírio das vitórias da parte de quem nunca ganhou nada de significativo e, sobretudo, com a ameaça da derrota de quem sempre ganhou tudo com uma perna às costas. Já o disse e escrevi várias vezes mas não custa repetir: em tempo de eleições na Madeira, a oposição tão facilmente se deslumbra com a miragem da vitória, e relaxa, como o poder se assusta com a hipótese de derrota e, se for preciso, até ‘come relva’. A ideia de perder mordomias motiva muito mais quem sempre as teve, do que a possibilidade de as ganhar por quem nunca soube o que isso é.