Ao entrar no burgo, sob os tons rosados do crepúsculo, era um outro canto que se murmurava. Um canto sem glória e sem poderio. Um canto como uma longa frase continuamente recomeçada, um canto triste e belo que verte em tremulações as suas notas à beira do sufocamento, à flor das lágrimas. E a menina pensa que a Fada chorosa que durante tanto tempo assombrou a granja abandonada, depois incendiada pelo raio, devia lamentar-se da mesma maneira. A sua irmãzinha - a morta e a viva - tornou-se uma fada. Uma coitada de uma fadinha, de coração aflito e corpo roubado. Como não há-de Annie acreditar nas fábulas, na espantosa realidade das fábulas, se os vivos, na transcorreria dos seus dias cá na terra, lhes dão carne, rostos e vozes? O mundo é uma fábula, e a vida um grande livro de imagens; imagens pintalgadas, sonoras e odoríficas, imagens em movimento que dançam ou agridem.

Escuta o canto rouco, sincopado, de Melchior, aquele doce génio do lugar que vela pela noite, pela memória, pela paz da terra. Ela acolhe o canto na sua infância, na sua própria memória vindoura. A pequenita não suspeita que esta voz um dia calar-se, que canta de idade em idade e liga os viventes á sua terra, que virá um Inverno em cujo termo Melchior já não despertará, que virá uma noite de Primavera muda e vazia. Não suspeita sequer da dor que sentirá; uma dor de criança, tão furtiva quanto profunda. Não sabe, tão-pouco, que esta voz que terá ressoado tão amiúde nos seus serões de infância vibrará mais tarde, por vezes, repentinamente no fundo da sua memória, e que com o tempo todos os cantos de sapo se traduzirão em nostalgia para ela. Ignora que a memória, a fim de realizar a sua obra clandestina, se apoderá de todos os materiais que encontra no caminho, ainda que sejam os mais modestos, e até irrisórios.

Não tem palavras para exprimir a sua dor para a chamar. Evita-se as lágrimas. O corpo ao cabo de dois dias de busca; jazia num fosso. O pescoço evidenciava marcas de estrangulamento, o corpo vestígios de uma profanação. Agora , Annie já não é , voltou a ser a filha única. Resta-lhe a flauta. Toca ao avesso do mago de Hameni; desembruxar a irmãzinha, romper o negro da morte, erguer a pesada pedra que a retém no frio da terra, mas só consegue as suas lágrimas que ela enfeitiça, lágrimas em notas ténues, em melodia tremulosa. Toca á flor do sonho, sopra á flor da sua mágoa. No burgo, toda a gente ouve a ária obsidiante que Annie toca na sombra de sua casa. Mesmo quando não toca, as pessoas continuam a ouvi-la. É como se a ária de tanto sanfoniar, se houvesse desprendido da flauta, e esvoaçasse só pelas ruas. É como se a ária, de tanta tristeza, se depusesse no ouvido das pessoas, discretamente, e retinisse como um ruído de lágrimas. Diz-se, « Ouvem? Já não consegue deixar de tocar.» Diz-se é « a filha dos…», sem precisar o nome dela. Porque todos os pais sentem o coração apertado quando se lembram da - morta e da viva. E as mamã acautelam-se, andam inquietas. Nada se sabe acerca do assassino, talvez ainda ronde pela região…Desde o crime, as crianças já não têm licença para irem sózinhas ao campo. Annie não entendeu lá muito bem o que aconteceu.

As palavras « crime » e « «violação» que pronunciavam nela mais ou menos o mesmo que as palavras marteladas pela velha tia - N do Anjo Branco, cigana, morrinha, guerra, viuvez…A Mãe furtou-se ás explicações.

Desde essa altura, imagina a irmã envergando a sua blusa de aluna de algodão verde e branco, que ela vestia no dia do crime, sentada a uma mesa imensa. Uma mesa muito maior que a dos banquetes de boudas ou de comunhão solene. Esta mesa celeste está coberta de uma toalha deslumbrante, tecida em raios de arco-íris e nela se serve leite de estrelas, assim como bolos de luz a escorrer mel solar.

Tornou-se criança de Deus por toda a eternidade. Já revestiu o corpo de glória; um corpo de luz pura, mais gracioso e leve que uma rósea ao nascer do dia. Ainda traz, todavia, a sua blusa de estudante. Impecável, como é evidente. Á falta de explicação a menina acabou por integrar o mistério da morte no seu imaginário repleto de fábulas e de lendas, e de narrativas da vida de Jesus e dos santos, que partiu para « junto de Deus », está sentada à mesa do Senhor, também o Menino Jesus é muito pequeno, mas soberano. Enverga um vestido claro, simples. O seu olhar olha para lá dele, o seu olhar é só por si todo um céu. « De qualquer modo pensa, somos todos feitos de poeiras de estrelas mortas e todos nós voltaremos a ser poeiras, para finalmente nos transformarmos de novo em estrelas. As estrelas são os nossos antepassados. E de resto os olhos, Deus pode perfeitamente conduzir o olhar até aos confins do mundo, e inclusive de todos os mundos.»

Debruçada sobre a noite, Annie haure e escuta, feliz. Ao longe cintilam-se outros ruídos. A ramalhete da folhagem, a marulha de um regato, o chamamento de um mocho, o estrépito de uma portada, e, ténue, o som de uma harpa. Todos estes ruídos se misturam e tecem um rumor confuso. Só o canto de Melchior bate um ritmo sonoro e nítido. « Em breve, diz para si consigo, dormirei sozinha nas montanhas de Setembro. A única consolação de Annie é este quarto. « Hei-de por a cama ao pé da janela, cogita, daqui vê-se bem o céu.»

PRIMEIRA SANGUINA

A luz gira em vão no buraco das fechaduras. Falta-lhe força, é ligeira e amena. É paciente, resvala para a rua, aguarda nas soleiras, pousa em silêncio no rebordo das janelas escondidas atrás das suas pesadas portadas de madeira. Mas já de mansinho se coa pelas fendas das persianas e verte um pouco de cor-de-rosa na penumbra do tom dos cortinados de espessa fazenda corridos por cima de outros, finos como véus. Esboça uns vagos clarores tremulantes sobre as tábuas dos sobrados, sobre as pregas quebradas dos lençóis, aflora a armação das camas, as esquinas das mesas e das cómodas. Ilumia, não muito, a água dos jarros e das garrafas colocadas em cima das mesinhas-de-cabeceira, e por vezes roça uma têmpora, um pescoço ou ombro nu, ou então lança um raio sedoso num espelho, sobre uma unha, um lábio, uma madeixa de cabeços. Mas isto não basta para rosear as lágrimas furtivas que ondeiam nos seus sonhos.

Há porém, uma janela cujas portadas estão abertas de par em par, e as cortinas não estão corridas. É a janela do primeiro andar no flanco leste da casa situada à esquina da tranquila Rua da Granja das Lágrimas. A luz matinal penetra ali com toda a liberdade; salpica as paredes como água viva de uma fonte, desenha largas poças combiantes no tecto e no sobrado.

Na cama posta em ângulo ao fundo do quarto, está uma criança deitada. É um menina. Toda ela se dobra em posição fetal, estendida de lado, sob o fino cobertor de algodão.

A cabeça, esguedelhada, só emerge em parte;; os dedos estão aferrados à borda do lençol ornado de grinaldas de cerejas dobradas a fio encarnado. É franzina. E por se encolher assim no meio da cama, dir-se-ia minúscula. O cabelo é tão preto, e crespo, que nenhum reflexo vem matizar a sua cor. Sobressai, qual emaranhado de espigas em tons de carvão, contra a fronha branca. Os olhos estão arregalados; ela fixa a janela. Os seus olhos são tão pretos como o cabelo. Não dorme, nenhum sonho a habita, nem sequer um devaneamento. Foi o medo que a põs assim acordada. Um medo que bate no seu coração em pancadas entrecortadas. É o medo que a mantém, toda ela em alarme. É o pavor, e o ódio. Um pavor com cheiro nauseoso, tal qual a palha húmida que abolorece ao fundo de um estábulo. O cheiro do Ogre louro que vem fitá-la. Um pavor cor de lóios no meio do trigo. Um ódio compacto a um corpo de homem, um corpo pesado e sufocante como uma pedra tumular. Ela espera, Annie - a pequenina, que surja esse Ogre, esse grande corpo do seu ódio. Espera como esperam as presas que não podem fugir, petrificadas na sua fatal fraqueza. Sesde há muito, desde há demasiado tempo para a sua idade, ela vive inteiriçada num segredo cheio de nojo e de vergonha, e sobretudo de terror. Pela bitola da infância, o tempo da mortificação não tem limites nem medidas. ( cont. )

Renata Camacho