Fruto do talento e da mente retorcida de dois homens, Portugal inteiro assistiu esta semana a uma peça de teatro. Foi uma tragicomédia que chegou ao mesmo tempo a todas as salas do País. Não apenas às salas de teatro mas, sobretudo, às salas de estar de cada português em capítulos apresentados à hora dos telejornais, com direito a directos que davam para portas que nunca mais se abriam, para paredes cor-de-rosa onde não se passava nada, ou para um desfile de ministros em que ninguém fazia comentários.
Pedro, o obstinado, e Paulo, o malabarista, são os protagonistas deste teatrinho deprimente a que, com propriedade, se pode intitular de “A Farsa”. Pedro e Paulo, que fazem de políticos de primeira, foram recrutados entre actores de segunda numa companhia de bairro. No entanto, com golpes de rins nunca experimentados em nenhum teatro da vida real, conseguem prender a atenção de milhões de portugueses verdadeiramente embasbacados com tão eloquente actuação.
O enredo é simples: num país marcado por uma crispação crescente, com uma greve geral e gente irada a cada esquina, Pedro, o obstinado, faz de primeiro-ministro sisudo, que se dá a ares de ser o único responsável do elenco que, na verdade, se resume a estes dois artistas. Já Paulo, o malabarista, interpreta com mestria o papel do parceiro traído que abandona o lar para não mais voltar. É numa cena em que entra uma nova actriz de nome Luís, que Paulo anuncia o fim do acordo que os trazia juntos. Portas fechadas. Relações cortadas. Pedro, surpreendido, põe o seu melhor fato de arrependido, coloca voz de tenor falhado e canta a música do bandido a toda a plateia. Que não, que não aceita aquela separação depois de tudo o que fizeram juntos. Que espera que Paulo reconsidere. Que está disposto a fazer de tudo para o agradar em nome do projecto que vivem em comum. Imaginam-se cenas de lágrimas, de cabelos desgrenhados. Por fim, Paulo começa a ceder e aceita conversar com Pedro. Uma e outra e ainda outra vez. À noite, de manhã, à tarde, os encontros secretos sucedem-se. O malabarista dá sinais de que aceita voltar a casa, com uma condição “irrevogável” até à próxima revogação: a de que o obstinado nunca mais o vai trair. “Ouviste, Pedro?”. Esta parte não se ouve, mas adivinha-se. As coisas começam a compor-se, mas o final, que se prevê feliz para eles e infeliz para nós, está em aberto.
É nesta novela de escrita simplória que os portugueses andam entretidos vai para uma semana. Esqueceram-se da austeridade, dos protestos, das críticas, do desemprego, das greves, dos impostos, dos preços, da falta de dinheiro. E os dois principais partidos da coligação que manda nesta enorme companhia de teatro, procuram antecipar estragos que se adivinham nas próximas eleições autárquicas, mesmo que à conta de juros mais altos e de graves perdas nos mercados financeiros.
Por tudo isso, o que aconteceu esta semana em Portugal só me fazlembrar aquelas horríveis telenovelas mexicanas mal escritas, mal traduzidas e ainda pior interpretadas. E lembro-me de que há poucos anos era comum ouvir de políticos mais pudicos o medo de Portugal, e muito particularmente a Madeira, experimentarem aquilo a que chamavam de “mexicanização da política”, numa referência pouco simpática à baixa política, feita sem ética, sem rigor, sem valores. Acredito que, neste momento, em muitos outros países e até no México, mesmo os mais mal formados temem que lá chegue a “portugalização da política”. Esta semana, a governação de Portugal esteve ao nível do que de piorse faz na Assembleia regional. E isso, como se sabe, não é fácil pelo que é preciso agradecer a Pedro e, sobretudo, a Paulo. Palmas para eles. Agora podem ir.