O desconhecimento que envolve as situações de abuso sexual é imenso e carregado de falsas crenças e preconceitos. Sendo que, abuso não é obrigatoriamente violação, no sentido do que se entende enquanto tal, violação pressupõe ato forçado, com recurso à força física, enquanto abuso é o ato de manipulação exercido a uma criança ou jovem de menor idade, por alguém mais velho, nomeadamente, e na maioria das vezes, adulto de proximidade. Há pouco tempo abordei a questão da Casa Pia e da forma desastrosa, como o processo foi sendo conduzido, passando para a opinião pública mensagens contraditórias e pouco esclarecedoras, altamente penalizadoras para as vítimas. Hoje, quero sublinhar esta tendência de desvalorizar as vitimas, na sua maioria crianças e jovens, através de discursos de responsabilização das mesmas, no jogo sexual em que se encontram, como resultado de atos de manipulação e sedução perversos, conscientes, por parte de quem os pratica. Os abusadores são, na grande maioria dos casos, pessoas próximas das crianças ou jovens e muitas vezes das suas famílias, ou mesmo familiares diretos ou indiretos. Na maioria dos casos, pelas características da sua personalidade, são pessoas amáveis, simpáticas, com grande disponibilidade para conviver com crianças, responsáveis e muitas vezes acarinhadas pela comunidade onde pertencem. Com estas características, fica difícil que, os adultos no geral, suspeitem que alguma vez essas pessoas possam, deliberadamente, fazer mal a uma mosca, quanto mais “ violar “ uma criança. Digo-o desta forma, porque me tenho apercebido que uma das formas dos adultos desculpabilizarem comportamentos de abuso, por parte dos abusadores, é substituírem a expressão de abuso por violação, querendo desta forma implicar as crianças nos atos em que as mesmas foram seduzidas a participar. Claro que o uso das palavras e a forma como se tende a olhar a realidade transforma a mesma em outra completamente distinta. Isto é quando se usa o termo sedução, não falamos da sedução de adulto para adulto, integrada num processo de conquista onde ambas as partes estão preparadas para a partilha da vivência em causa. A sedução do abusador é perversa, na sua forma e essência.As crianças ou jovens, não são adultos e não estão no mesmo registo de desenvolvimento pessoal, nomeadamente sexual. A sua leitura da realidade é muitas vezes a de ceder a uma vontade de alguém, que admiram e respeitam e que não acreditam que lhes queiram fazer mal. Quando os abusos se repetem e as crianças começam a sentir que alguma coisa não está certa, sentindo-se desconfortáveis e assustadas, a manipulação por parte dos abusadores aumenta. Fazem com que as crianças ou jovens se sintam corresponsáveis pelos atos, ameaçam contar a outras pessoas ou de as rejeitarem afetivamente. Face a estes cenários as crianças ou jovens, calam-se, escondem a realidade, sofrem no silêncio e tornam-se objetos de prazer de adultos pertubados, mas integrados e aceites na comunidade a que pertencem como adultos normais, saudáveis e muitas vezes considerados de referência. Quantas vezes estas crianças ou jovens, tentam pedir ajuda, contar a verdade e muitas vezes os adultos de proximidade não acreditam e, ou as definem como mentirosas ou culpabilizam-nas pelo que estão a dizer, deixando subentendido, que se alguma vez tiveram aqueles comportamentos então o castigo recairá sobre si próprias. Esta incompreensão potencia o abuso e deixa as crianças ou jovens cada vez mais solitários, num sofrimento de dor dilacerante, com marcas profundas no seu desenvolvimento. Quando alguns adultos da comunidade, pais , professores ou outros se mostram compreensivos com as crianças ou jovens e accionam mecanismos de apoio, eles próprios enfrentam muitas vezes, o estigma da comunidade, como se mais uma vez estivessem a defender criminosos e pessoas sem carácter, que só pretendem manchar a imagem de gente de bem. Como se o feitiço se virasse contra o feiticeiro. Há muito a fazer nesta área, esseencialmente no que diz respeito à mudança das mentalidades. Porque querem tantas vezes as pessoas ver o que lhes parece mais sereno e adequado e não aceitam olhar a realidade de frente. Não é sequer preciso tomar posições, porque não se está em julgamento, basta querer olhar os fatos. Como podemos penalizar crianças ou jovens, que foram enganados e violentados na sua essência, usados e abusados por adultos que apesar das suas competências intelectuais ou sociais estão a provocar uma dor intensa e a amputar um crescimento digno e saudável das crianças e jovens da nossa comunidade.. Como podemos fechar os olhos a situações que não nos deixam dúvidas, querendo acreditar que o que aconteceu aos filhos dos outros só pode ser problema dos outros e dessas crianças ou jovens”preversas” quando perversos foram os adultos que os usaram. Não esquecendo que os abusadores precisam de ajuda as crianças e os jovens não podem entretanto continuar a servir de escudo protetor. Os filhos dos outros que hoje ensinámos os nossos a lhes virarem a cara e a fugirem deles como se fossem bichos maus, amanhã podem ser vitimas dos adultos de referencia que pretendemos defender. Cuidado com as certezas, as crianças e os jovens são o nosso futuro, precisam de ser estimados e protegidos, todos sem excepção.

Manuela Parente