O presidente do Governo Regional já vai em sete viagens oficiais ao longo de sete meses de desgovernação. O líder parlamentar do partido que sustenta o Governo Regional ofende a mãe do líder do maior partido da oposição. Um vereador que ousou discordar da política do Governo Regional foi sumariamente expulso do partido. Bem-vindos à Madeira, a terra onde qualquer aberração ética ou democrática ganha direito a selo de certificação da mais pura normalidade. E agora, a mais recente pérola deste regime: um ex-secretário regional que passa férias, durante 15 dias, na casa do Governo Regional, no Porto Santo, a preço de tremoços com direito a cerveja para dentinho. Não sei o que pensam disto as pessoas de bem, mas tenho para mim que isto a que assistimos é uma autêntica pouca-vergonha. Uma promiscuidade inaceitável. Um abuso intolerável. Um poder que se confunde com propriedade. Mais do que saber que um antigo secretário regional goza de privilégios como se ainda o fosse, custa-me aceitar a desculpa esfarrapada de que está tudo certo. Como se fosse possível acreditar que há alguma coisa de certo nisto. Como se fosse possível a uma família qualquer fazer uso sequer do quintal da quinta onde se bronzeia o antigo governante no Porto Santo. Por mais impoluto que seja, quem se deixa ficar assim revela falta de pudor. E pior: mostra que persiste eternamente, no cidadão normal, o poder de um governante fora de prazo. Dá um estranho sinal de hereditariedade de uma herança que não se lhe reconhece. É assim a política onde reina a ideia, verdadeira, de que para alguns isto é tudo nosso. E ‘isto’ é a Madeira de todos, dominada há mais de 30 anos pelos mesmos. ‘Isto’ é o resultado do esforço de gerações. Do esforço de muitos e também, é preciso reconhecê-lo, da cegueira de muitos outros que se deixam levar pela som da fanfarra com a mesma leveza do mato seco em levada íngreme.
É curioso reparar que nesta fase política em que vivemos todos os partidos se preocupam em apresentar ideias, projectos, propostas, planos para os próximos quatro anos. Na verdade, partidos e candidatos estão muito à frente dos eleitores. Antes de fazer tudo isso alguém tem de se dar ao trabalho de educar os cidadãos para a cidadania. Parece uma coisa simples mas não é. Na Madeira será mesmo uma tarefa hercúlea. Porque é preciso começar tudo de novo. Grande parte dos nossos eleitores precisa de voltar aos bancos da escola da cidadania e fazer todo o caminho, desde a pré-primária. Porque é aí, nesses primeiros passos da aprendizagem da vida, que se aprende a separar o bom do mau. É na pré-primária da escola da cidadania que se aprende a valorizar o voto, a olhar para o lado, a ver outras pessoas para além das mesmas de sempre. Talvez quem fizer esse percurso escolar consiga perceber, ao fim de uns anos, que um governante não é mais do que alguém que escolhemos e que pagamos para fazer o que se propõe pela sociedade. Logo, tem os direitos consagrados na lei e nada mais do que isso. Quando todos os eleitores conseguirem perceber que o ‘senhor governo’ não passa de uma balela, talvez consigam entender que aos governantes nem tudo é permitido e que enquanto cidadãos têm o dever de tirar as palas que lhes puseram e olhar em volta com sentido crítico, não necessariamente comprometido com poder ou oposição. Enquanto não se ultrapassar esta fase rasa da vida em comunidade, está o caldo entornado.
As férias de Brazão de Castro, no Porto Santo, durante 15 dias com a família na casa do Governo Regional, até podem ser uma coisa ínfima, que não são, mas representam o que de pior nos deixa este regime: a ideia, defendida e praticada por alguns dos que beneficiam da teia criada, de que ‘isto’ é tudo nosso. Neste caso, ‘isto’ é tudo deles.