1. O Ministério Público produziu esta semana um interessante despacho sobre o caso do homem que atirou um copo de plástico ao presidente do Governo Regional. Interessante porque o caso em si é naturalmente polémico, mas sobretudo porque revela um completo desfazamento em relação a outros casos igualmente polémicos. Não está aqui em causa a defesa do presidente, do seu direito ao bom nome e, como é evidente, à sua integridade física. Nada, nem o desespero causado pelo desemprego, justifica uma atitude daquelas. Mas o caso é interessante porque põe a nu realidades caricatas. Diz o Ministério Público que o arremesso de “um copo plástico maleável” com cerveja - que a fotografia de Teresa Gonçalves mostra claramente que estava em estado líquido – atingiu Jardim “na face com um forte impacto”. Mais interessante ainda a referência ao facto do ‘banho de cerveja' ter causado “dores e incómodos”. Incómodo é claro que causou, mas dor... só se se considerar o vexame, a ira, a surpresa e a raiva sintomas de uma qualquer doença. Como já muitos comentaram, custa a crer que alguém que se especializou no insulto, que se agiganta com o agachamento dos outros, que se eleva sobre o apoucamento dos mais fracos adversários, se sinta agora assim tão dorido. É que depois dessa dor, perante uns inocentes apupos no Bairro da Nazaré, Jardim não hesitou em chamar de cachorros os que os criticavam. Como antes disso não teve problemas em chamar patas rapadas a quem não é doutor, ou bastardos aos jornalistas e os mais reles adjectivos em tantas circunstâncias cuja descrição seria maçadora. Entretanto, ao mesmo tempo em que era formalmente acusado de dois crimes o cidadão desesperado que agiu mal e reconheceu que não o deveria ter feito, o presidente do Governo Regional voltava a passear-se por essa Europa fora. Foi a sexta viagem oficial em seis meses. Talvez não saiba o presidente, mas tanto esbanjamento, tanta extravagância, tanto descaramento, tanto gozo com os seus talvez lhe dê saúde. Mas ao povo que sente a crise, o desemprego, a fome... causa dor e incómodo. 2 . Numa entrevista de leitura obrigatória a Miguel Albuquerque, que hoje se publica na edição impressa do DIÁRIO, entre várias outras reflexões e desabafos bastante pertinentes, retenho uma com que me identifico particularmente, enquanto jornalista e cidadão contribuinte. Diz assim o presidente da Câmara do Funchal: “Veja o autêntico escândalo que se passa no Jornal da Madeira onde temos um exercício assumido de censura relativamente à CMF e aos membros da CMF. Nós não aparecemos no JM. É de um ridículo total. Isto é de gargalhada.” E é. Este provincianismo bacoco de ter um jornal só para si e alguns dos seus tem muito de brincadeira de alunos da quarta classe em que o dono da bola escolhe a equipa ou então ninguém joga. Mas, neste caso, não é só Albuquerque e a CMF que não jogam. Não joga ninguém. Não fosse a ‘pipa de massa’ que se enterra ali todos os dias, todas as semanas, todos os anos e aquilo até seria de rir à gargalhada. Assim, como está, é sobretudo um ridículo que a todos nos devia envergonhar. Mesmo aos que têm lá presença regular. E volto a repetir: não está em causa a importância de se ter mais do que um jornal na Madeira, desde que haja um mínimo de decoro. 3. Enquanto o presidente sente dor e incómodo, enquanto se denuncia o ridículo e a gargalhada que é o JM da forma como está, a esmagadora maioria dos madeirenses tenta fugir dos escombros de uma enorme derrocada que nos caiu em cima. É como se a parede que demorámos décadas a construir esteja a ruir por completo. E pior é que mesmo quem pensa que se safou, se olhar com atenção para cima verá que há ali umas pedras soltas que ameaçam essa esmagadora maioria que não subiu ao pedestal. Esses sim, podem cramar da dor.