Há muito muito tempo que o Brasil não vivia um clima de instabilidade como aquele que agora ocorre. O rastilho foi o protesto contra o agravamento do custo dos transportes, qualquer coisa que parecia insusceptível de desencadear a onda incontrolável de contestação em que vive o país e que de São Paulo ao Rio de Janeiro alastrou já aos maiores Estados. Coisa que estava em absoluto fora das perspectivas dos organizadores. O que é que conduziu a que um simples protesto com base no custo dos transportes alastrasse um pouco por todo o país acabando por ganhar a dimensão transversal que é hoje conhecida? É que aquilo que está hoje em causa está longe de ser apenas o custo dos transportes. Acontece simplesmente que o Brasil atingiu o ponto de saturação. No decurso de um período de crescimento económico como é o caso daquele que ora se vive, o povo brasileiro sente que continua a ter carências gritantes a nível da saúde, que não tem sido feito pela educação aquilo que se torna necessário para o Brasil poder dar, nesse domínio, o salto, a insegurança continua a ser a mesma de sempre, a corrupção em lugar de regredir tem vindo a aumentar sendo agora conhecidas novas situações que comprometem entidades situadas em elevados patamares da vida brasileira, e contrastantemente a grande preocupação parece ser a organização do próximo Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos de 2016 onde o investimento feito atinge já números verdadeiramente astronómicos e o que falta fazer vai sofrer ainda as derrapagens esperadas na circunstancia. Pela primeira vez os extractos menos atentos e esclarecidos do povo brasileiro estão a tomar consciência de que existem coisas que têm mais importância do que o futebol, como é o caso da educação e da saúde. Esse alarme soou agora e isso bastou para que vozes autorizadas como a de Pelé, quando teve uma intervenção menos feliz em torno da importância que para o Brasil revestem a organização do próximo Mundial e os Jogos Olímpicos de 2018, fossem contestadas com inusitada violência. É que sem deixar de ser verdade que o Brasil é o país do futebol, o povo brasileiro está a tomar consciência de que existem prioridades que vão para além de uma coisa e da outra e sente que tem nesse domínio um longo caminho a percorrer. A questão dos transportes, que parecia numa primeira análise uma questão avulsa, foi o detonador. Numa mega-polis como o é São Paulo, a maior cidade da América do Sul, as populações preferencialmente utilizadoras de transportes públicos não vivem na zona mais nobre da urbe mas nas zonas periféricas. E para aceder aos locais onde trabalha tem de empreender canseirosas deslocações diárias. Isso faz parte do dia a dia do povo trabalhador destas grandes cidades cujas rotinas diárias passam pelo dispêndio de várias horas diárias consumidas em transportes públicos, dispêndio esse a que acresce o próprio custo do transporte que é naturalmente tanto mais elevado quando mais distante é a deslocação. Na agenda dos protestos, esta foi a gota de água. Acresce que á questão dos transportes veio somar-se a questão da saúde, a da educação, a da corrupção, os gastos astronómicos com os dois eventos desportivos que o Brasil vai organizar nos próximos anos, o que tudo junto se transformou num pacote ingerível levando a que o copo transbordasse com os resultados que já se conhecem. Segue-se que a presente onda de protestos não é favorável para a imagem do Brasil, uma imagem colada á ideia de progresso, de prosperidade económica, de um país que gere de forma autosuficiente os seus problemas. E em lugar disso o que surge é um país a contas com movimentados protestos sociais, com cargas policiais, com jornalistas agredidos pelas forças da ordem como foi o caso da jornalista de S. Paulo cuja imagem foi exibida por todas as televisões. É deste tipo de publicidade que o Brasil neste momento não necessita. Do que necessita, isso sim, é de encarar com realismo as suas carências e insuficiências, de não fazer por varrê-las para debaixo do tapete mas de procurar resolvê-las tirando proveito de um ciclo que contou de partida com o favor dos ventos e que reúne condições para ser levado a bom porto. Na certeza de que nenhum país é verdadeiramente grande quando hordas de deserdados da fortuna se confrontam com a impossibilidade de satisfação de algumas das suas necessidades mais elementares. É que nos tempos que correm já não basta pão e circo!
Carlos Sequeira