Pedro Melvill de Araújo É do conhecimento comum e do mais comum bom senso que é preciso estudar o passado para conhecer o presente e perspectivar o futuro. Quando digo estudar o passado, quero dizer conhecê-lo, saber quais as razões e motivações para determinada atitude, se o efeito prático ao longo do tempo foi útil ou se foram necessárias mudanças e reformas ao que foi feito num determinado contexto, e não, ter uma ideia por ter ouvido falar e, sem aprofundar conhecimentos, emitir opiniões e tomar atitudes que podem tornar-se piores do que aquelas que a perspectiva histórica equacionava. Também, e por maioria de razão, deverá ser assim numa área tão sensível à sociedade como a saúde. Isto a propósito de um debate sobre saúde pública e privada cá na Região que passou há alguns dias na RTP-Madeira. E, fiquei muito preocupado por muito do que foi dito, muitas vezes de uma forma pouco esclarecida, arrogante mesmo em algumas ocasiões, infelizmente. Fico preocupado por ver uma das primeiras bandeiras da Autonomia, a regionalização da saúde, ter vindo a ser tão maltratada, sem qualquer perspectiva histórica capaz, ou com total enviesamento da mesma, ao ponto de ser referida a hipótese da acabar com essa autonomia, entre outras atrocidades pouco esclarecidas. Fico preocupado quando, em vez de se discutirem perspectivas futuras, ficarem a remoer em coisas passadas e capacidades instaladas, esquecendo-se do porque é que foram instaladas, quanto é que isso custou e ainda custa, da sua necessidade devido à insularidade, à formação, etc. Fico preocupado quando o debate se centra à volta de financiamentos e de algumas guerrinhas de capoeira, em vez de se centrar nas necessidades reais dos doentes. Fico preocupado com muitas coisas mais, incluindo alguns clamorosos “erros de casting” que já vêem acontecendo desde há alguns anos. Fico preocupado por se estarem a deixar passar oportunidades únicas, por se estar a olhar para o funil pela parte mais larga que inevitavelmente acaba no buraquinho, em vez de alargar o campo de visão. Enfim, fico preocupado pelo enviesamento das perspectivas históricas que têm levado a que se faça tábua rasa do que foi feito por absoluta necessidade de melhoria da prestação de cuidados de saúde a uma população carente, que se faça tábua rasa de ideias que bem trabalhadas e aprofundadas podem ser trampolim para outras formas de encarar as potencialidades da tal capacidade instalada, sem destrui-la sumariamente, que se faça tábua rasa da enorme experiência que se acumulou ao longo das últimas três décadas, em nome de uma inovação que, precisamente por não ter tido bases nas motivações passadas, vem enviesando o presente e condicionando negativamente qualquer perspectiva futura. É tempo de aproveitar o pouco que o Estado Português deixa como Autonomia, para de uma forma séria se debaterem novos caminhos e novos paradigmas, com seriedade e humildade, sem arrogâncias e com atitudes colaborantes por parte de todos os agentes sociais. Julgo, aliás, que estas premissas são válidas para qualquer área da nossa sociedade, para que se possa seriamente estudar o passado para conhecer o presente e perspectivar o futuro.