Em pleno prime time da televisão pública portuguesa, Fátima Campos Ferreira arbitrava aquele que seria palco de um David vs. Golias tornado viral, o mini-debate entre Martim – jovem empresário de 16 anos – e Raquel – historiadora e investigadora. Martim tem 16 anos, uma ideia de negócio interessante e uma estratégia de promoção inovadora. O jovem desenhou umas roupas, pediu às “raparigas mais giras” da escola para as usarem e – bingo! – já exporta o seu produto. Eis que Raquel, antecipou que este seria o momento ideal para dar uma lição a um adolescente e assim pôr a descoberto o capitalista sem escrúpulos que é Martim. A investigadora presumiu que as roupas eram fabricadas na China, Martim esgueirou-se e ripostou que as fábricas eram portuguesas. Não satisfeita, Raquel advertiu que nessas mesmas fábricas ganhava-se o salário mínimo. “Ao menos os trabalhadores que ganham o salário mínimo não estão no desemprego.” Martim colocou Raquel num beco sem saída, e sem palavras. Na verdade, a resposta de Martim é mera aritmética, 1 será sempre mais do que 2, ter um emprego será necessariamente melhor do que não o ter. No entanto, Raquel também terá a sua quota-parte de razão, o salário mínimo não garante uma vida digna. O problema de Raquel é que reduziu esta questão a duas possíveis respostas: ganhar o salário mínimo ou ganhar o seu salário como historiadora. E ao fazê-lo levar-nos-ia à brilhante conclusão de que, por vivermos numa sociedade desigual, com pontos de partida diferentes, não vale a pena empreender. O Martim apenas demonstrou que vale.

João Paulo Marques