Ainda é difícil chamar de grande cidade ao Porto. Ainda existe aquele medo ténue, discreto, saudável e civilizador de se voltar a encontrar as pessoas. Dá-se bom dia a entrar nos sítios, mesmo – e sobretudo – quando não se conhece ninguém. Cultiva-se a economia de bairro – o talho, a tabacaria, a mercearia, a loja de ferragens, os restaurantes chamados “Cantinho”, “Senhor-qualquer-coisa” e “Esquina” – de preço a olho e gestão amadora. O medo cedo se transforma em respeito. Quem se respeita mais fala mais, e quem fala mais fala melhor. Por isso a língua é mais apurada e radical, a boca mais rápida, incisiva e decidida – só no bairro, o jornal vago “descansa”, o café fumegante “acalma”, o doente “refrega”, carnes sobrepostas “contendem”, o pão de ontem “pernoitou”, o guardanapo caído “desmaiou”. O respeito culmina no palavrão, altura em que se eleva a uma forma de afecto. Na papelaria, perguntam-nos se queremos “o car*alh*” do suplemento que vem com a revista, e que custa “50 cêntimos, ou o car*alh*”. Isto valoriza-nos. Presume que já vivemos um pouco. O suficiente para não nos chocarmos. O suficiente para saber que o suplemento não vale um car*alh*, mas 50 cêntimos também não. E a gente leva o suplemento, ou a outra coisa, felizes pela cumplicidade entre a transacção e o elogio à nossa experiência. Estes costumes misturam-se com elementos rurais e bucólicos. Os prédios não são altos, e é sem raridade que a cidade se interrompe para dar espaço a casas pequenas ladeadas de grandes jardins, onde árvores de copa larga fazem as vezes dos estores. Os edifícios abandonados são reabilitados por trepadeiras e animais, que com inusitado sucesso convivem com as tentativas de arte urbana. O Porto tem a melhor equipa de futebol e os melhores políticos do País. Os primeiros, porque ganham títulos, e os segundos – não só, mas para começar – pela pouca vontade de se dar com os primeiros. Para além de não gostarem de se misturar com bola, quem mexe nisto tem um plano de afirmação e desenvolvimento na diferença, defendendo o ambiente, a paisagem, a região e a cultura. Promovem-se eventos substantivos e distintos – na música, no automobilismo clássico, na aviação, nos museus. No Porto, não se sente a vertigem do cosmopolitanismo – a vénia servil a tudo o que vem de fora, a pulsão cega de obliteração do local e do tradicional. Come-se obscenamente bem. A arquitectura é respeitosa e competente. Ao invés do que acontece no Carnaval e santos populares a Sul – onde os rituais evoluíram para uma cópia infeliz ou para uma sátira ao sentido original da celebração – os símbolos honram-se, e as festas populares e académicas veiculam um sentir genuíno e quase imune ao ridículo. No Porto, há uma Portugalidade que não se resigna. Que resiste ao apelo todo-consumista e indiferenciado da novidade. Que faz o que pode, mesmo quando pode pouco. Que não toma a Troika, a Economia e a política pelo fim da vida e das ideias. Que tem uma identidade e dela se orgulha para além da superficialidade e da semântica. Que não quer trazer o melhor do Mundo a si, mas dar o melhor de si ao Mundo, para então recebê-Lo em troca. O Porto pode não ser uma lição, mas é pelo menos uma chamada de atenção para um universo independente da crise, onde a mesquinhez e o pessimismo são contrariados pela crença em fazer bem e fazer diferente. Para um universo avesso à utopia, mas também à banalidade, que recompensa o esforço de criação de melhores versões de nós próprios. Um universo que pode ser – e é em muitos sentidos – madeirense.
Pedro Fontes