1. O tempo que vivemos trouxe-nos à luz uma crise, com ela um tsunami de desempregados, uma enorme carência de lideranças e uma insegurança tremenda a todos os níveis. O sentimento de orfandade é por demais evidente e toca a todos. O futuro mergulhou na maior das incertezas. Parece ser nada o amanhã para velhos e para novos. Um tempo de verdadeira fome ou de várias fomes. Um tempo triste para todos os que se inquietam com as coisas deste mundo. 2. No discurso pronunciado pelo Papa Francisco, ao receber as credenciais de embaixadores de diversos países junto do Vaticano, a 16 de Maio de 2013, afirmou: «Assistimos a uma crise do homem que destrói o homem» (…) E depois explica: «o ser humano, hoje, é considerado como um bem de consumo, que se pode usar e, depois, deitar fora. Esta deriva verifica-se a nível individual e social, e além do mais é promovida»! Por isso, alertou o papa: «A ética conduz a Deus, que se situa fora das categorias do mercado. Deus é considerado, pelos financeiros, economistas e políticos, como incontrolável ou até perigoso, porque induz o homem à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão». Basta pensarmos no desrespeito que há em relação às pessoas que figurões e instituições da sociedade levam à prática. Neste contexto descobrimos nas artérias da cidade uma falta de ética e logo depois uma ausência de Deus. Gostei de um cartaz que anunciava a festa do Corpo de Deus numa determinada Diocese do nosso país: «Cristo vivo no coração da cidade». Falta-nos anunciar e testemunhar esta «Presença» sem vergonha, porque não basta a gabarolice de ser cristão. É preciso ser consequente. Urge para todos uma cidade onde corre e mana o valor da justiça, a paz e oportunidades para todos sem joguetes ou falcatruas que no fim são só sucesso para alguns. 3. Neste domínio da fome do Corpo de Deus na vida e na cidade, emerge uma classe de altruístas voluntaristas que se dedicam aos pobrezinhos, mesmo que a eles chegue apenas umas migalhas fora de prazo. É insultuoso dar aos pobres o que não serve para nós ou para os ricos. Este contentamento descontente de que é melhor ter alguma coisa do que não ter nada está a tornar-se insuportável. Algumas instituições dos pobrezinhos defendem que é melhor ter um bife uma vez no ano do que não ter nada, é melhor receber produtos com quase três meses fora de prazo, porque é melhor que estar a passar fome. Isto vai por aí abaixo sem nunca mais parar, o que já fez de um jovem herói quando saiu do seu anonimato empresarial e foi levado ao colo pela popularidade porque respondeu afeadamente a uma doutora que era melhor ter o salário mínimo do que estar no desemprego. Até é verdade e seria muito bom se vivêssemos num país onde o salário mínimo chegava para sustentar uma família. Este contentamento miserabilista vai fazendo ainda mais vítimas e vai escondendo o essencial, isto é, que precisamos de lutar pela justiça contra todas as formas de exploração da pessoa humana. Devemos estar contra a caridadezinha que não resolve nada e que apenas nos faz exorcizar a realidade, permitindo que a injustiça seja cada vez mais o pão de cada dia. 4. Não sou «cúmplice» do Diário de Notícias, nem muito menos tenho nada a ver com as orientações editoriais deste matutino, sou apenas um cidadão, convidado pelo director do Diário de Notícias, que colabora mensalmente com uma crónica produzida pelo meu pensamento livre, coisa estranha ainda a muita gente na nossa terra. Grave seria se tivesse que abdicar desta participação pelas razões que uma certa pressão abjecta vai apontando, seria isso sim, mostrar que era contra a livre expressão do pensamento e que só desejava a publicação de notícias cor-de-rosa. Por este prisma, não é que me coloque ao nível das figuras que vou referir, mas teriam também o Frei Bento Domingues, o Padre Tolentino Mendonça e o Professor Anselmo Borges de deixarem de colaborar com o Público, o Expresso e o Diário de Notícias de Lisboa porque também estes órgãos de informação publicaram notícias bastante desagradáveis para a Igreja e para o clero de Portugal a quando das denúncias contra o bispo D. Carlos Azevedo entre tantas outras notícias relacionadas com casos de pedofilia… Não faz sentido e seria sermos isso sim, cúmplices com a ideia muito em voga neste país e na nossa Região que se pode afunilar o pensamento e a livre expressão das ideias. Não embarco nisso.
José Luís Rodrigues