“Há muita gente contactada mas devido à teia criada na Madeira, é difícil dar a cara”. A frase é do social-democrata André Pestana e foi dita no dia 6 deste mês, quando assumiu que depois de anos no PSD, é candidato independente à Câmara Municipal da Ponta do Sol. “O que posso dizer é que sinto que há gente ‘queimada’ dentro do PSD que gostaria de dar a cara mas ainda tem medo. Notei isso no sábado quando as pessoas fugiam de nós”. A frase é da social-democrata Ana Marisa Maia e foi dita dia 14 deste mês, quando assumiu que depois de anos no PSD, é candidata pelo PS à Câmara Municipal do Porto Santo. “As pessoas têm medo de dar a cara. As pessoas não são tão corajosas como eu fui. As pessoas têm medo das represálias”. A frase é da social-democrata Paula Serra e foi dita dia 14 deste mês, quando assumiu que depois de anos no PSD, é candidata independente pelo PTP à Câmara Municipal do Porto Santo. A coincidência: três social-democratas que se afastam do partido e denunciam teias, medos e represálias. Que tem isto de novo? Nada, de facto. Apenas o peso de serem desabafos assumidos por gente que sabe o que é estar do outro lado. E isso faz diferença. Dirão aos mais afoitos social-democratas que são afirmações feitas por ressabiados, vira-casacas, interesseiros. Até podem ter razão, mas isso não retira o peso destas frases, tantas vezes repetidas pela oposição, mas agora, repentinamente, confirmadas por gente que sabe o que ‘a casa gasta’. Gente que conhece o peso da máquina e o longo braço do aparelho. Que sabe da teia, da dificuldade em dar a cara, de assumir um pensamento diferente. Que está avisada do medo e espera represálias. Conheço a triste sensação de ver alguém fugir de nós, mudar de passeio, evitar um cumprimento em público só para não ser conotado com este ou aquele, gente como nós, mas que perante a lógica da ‘máfia no bom sentido’ não passa de reles e perigoso comunista. Por isso, a estes três social-democratas e a tantos outros que começam a ver para além do boné, resta dizer: bem vindos ao mundo tal como ele é. E no meio de tudo isto, que diz o PSD do Porto Santo? Diz que a actual presidente da Câmara tem que afastar a sua secretária, agora candidata pelo PS, por entender que não é possível ter no gabinete da presidência alguém nessas condições. Percebe-se o desconforto. Bem vistas as coisas, o PSD não está sozinho nesta luta. Quase que aposto que toda a oposição o acompanha, porque há anos que reclamam contra essas ligações perigosas entre candidatos e poder. Curioso é que o próprio ex-presidente da Câmara do Porto Santo, que agora se escandaliza com uma secretária-candidata, nunca tenha revelado idêntico pudor ou reserva quando era ele presidente-candidato. Ser presidente e candidato é normal, ser funcionário do presidente já não é! A falta que faz um espelho.