Agora posso dizer-te, agora sim, como te quero. Corres-me no sangue, sinto-te na língua, nas mãos, no cheiro, nas contracções do estômago, no tremor de todo o corpo, arredondas-te na noite que me envolve, reconheço-te até no tempo em que não te conhecia, na aspereza do tempo e no seu drama, na lua-cheia de Outono, cor de laranja, nas folhas pisadas como as tuas pálpebras, sinais de ausência, lareira de veludo ( tão longe ! ) montanha em chaga que não se deixa escaldar. O que anuncias, me propões ? Sim, seria o enxofre, o sal e o mercúrio, de novo a criação do mundo. Os flancos da vida “carregados de dia”. É bom ouvir-te e sonhar ao sol da surpresa. Continuo a olhar-te sem te ver, no passado e no futuro. O problema é que não consigo acreditar nessa emergência sem máscara, condensação do delírio, da esperança, de todas as sementes que transporto no meu discurso, no meu desejo, na própria morte que te transmito. Falas-me dos meus olhos suaves. Pois não vês que são olhos de morte? Exacto. São olhos já doentes. Doença: visto-me com ela e não a dispo ao deitar-me, desperta-me, entre o suor e as dores da noite; vou tomando analgésicos - e aceitando. Vê, agora que me ofereces mais vida!… Ah, a distância! Por mais que te preocupe no branco deste espaço sobre o qual me inclino…Pois é. Encosto-me ao tempo, assim me compenso, entrego o corpo ( ou é ele que se entrega ) ao sol, à atonia de um prazer sem gestos. Nesses momentos, como agora, és uma sombra de uma ternura tão vasta que não há palavras…Este desejo que não é uma carência, mas uma possessão, este sangue ( de morte, se quiseres ) que vem de ti e me imunda. Às vezes penso que me iludo, que obscuramente quero iludir-me, é então que uma sensação de irremediável vai agarrada aos meus passos ( sempre o silêncio a rodear os dias porosos desta passividade ). Trago em mim um mistério que me renova: saberás dizer-me o quê?, sou à mesma ossos, fibras, nervos…mas a vida dilata-se em mim, não controlo já o corpo. Deus ou o Diabo me habitam: o mundo, um mundo outro - sombras de enormes cisnes, coisas gigantes, mãos de plasticina, estou delirando com certeza. Olho a parede sem a ver: sonho contigo - um naufrágio silencioso, sem velas, sem mar. Doença: a minha doença, hoje tu. As palavras emergem do segredo. Já viste alguma vez a saudade - ou a nostalgia - alongar-se em sombra, quase palpável, ao teu lado ? Aí tens como te estou sentindo. E não só agora. Já experimentei essa sensação, mas então como uma farpa naquelas horas de carne embrulhada em alegria de várias cores, em que a gente até acredita, tu deves saber, não há distância, não há suicídio que faça esquecer. Mas volto ao meu naufrágio sem ti. Continuo a saber-te de cor. Obsessivamente. Já tentei esquecer-me de mim enterrando-me na dor dos outros. Esquecer-me de mim? De ti? Mas estavas lá, reconheci-te nas faces das vítimas e dos carrascos, no fundo do túmulo que escavei e que depois tornei a encher com palavras de sonho. Já não me importa muito o que faças, o que digas, quero-te como eu te faço. E talvez isto seja insalubre. Talvez. Vingo-me conversando com a Louise Labé, com a George Sand, com a Virginia Woolf, com a Alexandra Kollontai. Mas…Chega a onda da neura, é ancestral: vibrações metálicas de um jardim esquecido, quero dizer, sepulto lá muito no fundo - e já só quero tocar-te, ouvir-te. Queria pedir-te que não me deixes ficar só. No entanto, estou e estarei só, mesmo contigo, nesta viagem, sobre cadáveres de escorpiões, ansiando pela tal música da belle époque. Mesmo na irrupção do sangue. Mesmo na sufocação do silêncio. Aí tens: a devorar o amor em palavras e a esquartejá-lo. O peso da morte, o silêncio branco em derredor deste sol que madruga quase vegetal através da janela. Como vês, não durmo. A casa treme de frio e de medo, cercada pela alquimia da neve, que uma chuva com risos chocos começa a gangrenar. Ontem, ou anteontem, ou há um ano, caminhava eu no vazio. E agora a neve prolifera, sobe até à varanda dos meus desencontros, do humor desencantado. O mundo enlouquece: esta violência do branco contra a noite, contra a minha noite, saturada, remendada, só vista! Estou afinal a nascer-me nesta agonia. A vida e a morte tocam-se cá dentro como a espuma da onda e os seixos. Vou exorcismar os meus demónios mais íntimos, redefinir-me. Grito por ti dentro da noite, com a boca primeiro a saber a cinzas, e logo depois a sangue. Vejo-me, no espelho, triste ( e na moldura da janela o sol é torrencial ), vejo-me a andar para o fim da tarde ( para a dor? ), afastando-me do teu olhar, mas sem deixar de o sentir, a arder nas minhas costas. Pouco importa se foste tu que revelaste a mim ou eu que finalmente me achei ( que presunção ! ) achei o quê? Quem sou eu ? E tu, que para mim foste liberdade, o calor da seda, o jorro de uma fonte, ilusoriamente eterna, tu próprio não sabes quem és - eu é que te vejo, te modelo, te engulo como a um estoque, te acendo como à chama de que preciso. Eu:

Daqui te falo, através do vento de Novembro ainda cheio de pássaros e que derruba alguns postes telegráficos e fica cheio de sangue ( do meu sangue congelado ) sobretudo quando se encontra com a neve na travessia dos Alpes. Porque, bem sabes, isto de escrever é como dar sangue, só vale a pena quando cortamos as veias, para depois as laquearmos, está claro, até um dia, até ao acto absoluto de auto-vampirismo que secretamente nos fascina. Em mim há todas as contradições, e só assim se explica que te deseje com este excesso que a distância torna em ferida e ao mesmo tempo com todo o amor e ódio por todas as mulheres, amor feito desta intensa espera de te descobrir e redescobrir, mas também da angústia, receio do definitivo; de infinita ternura, mas também de pânico, ou de espanto da abertura para a morte que é a aniquilação no outro.

Renata Camacho