Há futebol na vastidão negra e cintilante do universo que se expande à velocidade inimaginável de uma bola na trajetória para o infinito e para a divindade. Cada estrela é uma bola de hidrogénio a milhões de anos-luz da Terra; quando explode, torna-se numa supernova. A estrela é cadente; o futebol, candente. Há um mundo que se volatiliza e outro que se põe em brasa. Nike (irmã de Rivalidade, Força e Poder) é a deusa grega da Vitória, filha do titã Pallas e de Styx. A Deusa das Asas de Ouro (a taça do campeonato do mundo), uma estatueta de 30 centímetros e 3,850 quilos de ouro maciço, representa a deusa Vitória, símbolo de grandeza. «Pela sua ligação aos mitos, pela sua estrutura fortemente enraizada na arqueologia humana e pelo seu funcionamento claramente ritual», António da Silva Costa, no livro À Volta do Estádio, conclui que «o futebol deixa pressentir, no seu universo, uma alta religiosidade». Segundo Thomas Kistner, jornalista alemão, autor de Fifa Máfia (o livro negro dos negócios do futebol), «vislumbram-se, hoje em dia, nos estádios, formas de adoração que até há bem pouco tempo apenas se encontravam na Basílica de São Pedro». Também, Desmond Morris entende que o futebol «tem sido descrito como uma pseudo-religião, e existe um conflito de opinião semelhante na própria Igreja, entre padres que favorecem o ritual clássico e os modernistas que desejam actualizar as práticas religiosas e estão mais sintonizadas com as atitudes e os estilos de vida do século XX». Já Manuel Sérgio aconselha a «que se desmitifique os mitos e os deuses do desporto porque não passam de seres humanos que choram, cantam, gritam, amam». Mito que, em Fernando Pessoa, «é o nada que é tudo». E, em Raymond Aron, «continua a ser (como n’O Manifesto Comunista), o do aprendiz de feiticeiro». No futebol, mito é Maradona: El Diego, Pelusa, El Diez, El Gordito, El Pibe. A bola e o desporto são exteriores ou estranhos à narrativa de semideuses de um arquipélago, que confundiram grandeza com reforma e hoje se passeiam pela estrada monumental, sangrando críticas ao modelo original – pontualmente com erros – mas sem a possibilidade de um dia estalar (como as castanhas na boca).

Juvenal Xavier