Vivemos uma crise muito mais ampla que o aspecto financeiro que tanto é notícia. Todos os dias confrontamo-nos com situações que não dependem do dinheiro que falta, prometido ou devido. A profundidade da crise está, muito mais, na atitude das pessoas, ou pior, na sua falta. Produz-se exclamação face à crescente dívida nacional, ignorando, inacreditavelmente, que foi esse o propósito da ajuda externa negociada e fazendo crer que este não seria o caminho escolhido, suportando a surpresa na mediocridade e na desinformação permanente do povo. Enquanto surgem os primeiros sinais da estagnação do sentido decrescente da economia nacional, com o consumo a cair, pela primeira vez, menos que nos períodos anteriores e com indicadores promissores da OCDE, prefere-se atacar a falta de rigor nas previsões económicas como se as mesmas, alguma vez, fossem mais que isso mesmo: previsões. No momento em que o sacrifício exigido aos portugueses têm um rosto e uma política determinada, vaia-se quem procura recuperar o país enquanto se atribui recordes de audiência a quem muito ajudou a destruí-lo. Depois de anos a fio da mais desliar concorrência, assiste-se à insolvência de empresas que deixam milhões de euros de dívidas, com as quais se serviram para enfraquecer os cumpridores, enquanto os verdadeiros “espertos”, na busca de soluções, e impunes, lavam a cara e surgem no mercado como se nada fosse. Perante declarações públicas inqualificáveis que revelam que alguns milhões de euros não fazem falta à promoção turística externa da Madeira, comprometendo contratos futuros e aligeirando a pressão sobre os devedores, esmagando, ainda mais, os credores, nem uma voz se faz ouvir chamando à verdade e à clarividência que tanto falta. Enquanto se apregoa as dificuldades, competindo na disputa do maior problema e nunca da melhor solução, amontoam-se centenas à porta de um novo estabelecimento comercial que abre portas, apenas dentro de quatro horas, motivando uma fila de histéricos que noutras crises não se agrupavam para gastar dinheiro mas para mendigar um pouco de pão. A forma de reagir a tanta incongruência tem passado pela manipulação dos menos esclarecidos, mais fracos e desprotegidos. No entanto, aquilo que se verifica é que esses mesmos passaram a constituir a grande maioria. Uma maioria estranha por revelar um desconhecimento notório, ausente de sentido colectivo e que procura o mais fácil, o imediato mesmo que momentâneo. A verdadeira crise resulta de décadas de má instrução, educação, formação e responsabilização de um povo que continua a creditar naquilo que melhor lhe serve independentemente do interesse da sua nação. Para quanto tempo terá sido esta a opção de Portugal?

Eduardo Jesus Economista