Minha avó Berta dizia que só uma desavença familiar conseguia ser bem pior do que uma discussão entre varinas, uma rixa entre ciganos ou uma zanga de velhas comadres. E sabia bem o que dizia, pois a luta entre os liberais e absolutistas lançou a discórdia na nossa família. Irmãos contra irmãos e até filhos contra pais dividiram quase a meio – não sei se 48,6% para os liberais e 51,4% para os absolutistas – uma família até então unida e coesa. Nas memórias que deixou escritas, lembra minha avó que o momento de ruptura definitiva surgiu quando o patriarca da família já não teve força nem ânimo nem talvez coragem para mandar calar dois dos seus filhos mais queridos que se envolveram em acesa discussão, em que o insulto grosseiro atingiu a dignidade, penso eu, do filho mais novo. Mas não é necessário recuar até 1832 para dar razão à avó Berta. Basta olhar para o que se passa com a família política que há quarenta anos governa a nossa região. Exemplarmente unidos durante muitos anos, os membros mais ilustres desta família terão pressentido que a hora de disputar a herança do poder estava próxima e que a mão debilitada de quem outrora segurava os destinos da família já não conseguia conter a legitima ambição de um dos seus filhos mais rebeldes nem controlar, por muito mais tempo, os outros que, vivendo acomodados no regaço paternal, finalmente se agitavam, talvez impacientes pela longa espera, talvez na esperança que um último sopro divino do patriarca os pudesse ainda bafejar. E como sempre acontece quando a disputa por uma herança se instala no seio de uma família e corrói a sua alma, o verniz estala, a lealdade atrapalha, a traição floresce, os velhos ódios renascem, as ameaças intimidam e, soberano, o Insulto passa a ser a voz da razão. O Insulto há muito fazia parte do património intelectual de alguns membros desta família, mas só se abatia cirurgicamente sobre quem ousasse afrontar ou tocar os seus interesses instalados. Isto é, o Insulto estava sempre armadilhado e operacional, mas só para atingir outras famílias que não a sua. Mas, quando o sobressalto toma conta desta gente e a falta de educação toma conta das palavras, o Insulto explode incontrolável e, como esterco lançado na ventoinha, atinge e suja a própria família desavinda. Estranhamente, só agora é que alguns membros da família se deram conta de que o Insulto, esse primor de linguagem, há muito pairava entre eles e era voz corrente numa assembleia legislativa sem comando, sempre oscilante entre a brejeirice e o tristemente exótico. Talvez desatentos, alguns membros da família nunca tivessem reparado que esse Insulto há muito enfeitava inaugurações, alegrava beberetes e desabrochava em todo o seu esplendor no inefável Chão da Lagoa. E esse Insulto foi crescendo, gozando de uma impunidade que só uma sociedade demasiado tolerante ou agachada permite. Esse Insulto, protegido por uma falsa democracia que não respeita nada nem ninguém, foi ganhando espaço e invadiu toda a ilha. Mas mais grave se tornou esse Insulto quando transbordou para além dos muros da Assembleia, galgou um parapeito na Rua dos Netos, vagueou serenamente pelos jardins da Quinta Vigia e caiu, desamparado, na praça pública, arrastando-se penosamente até à barra de um qualquer tribunal. À politica o que é da politica, aos tribunais o que é dos tribunais. Mas nesta família desestruturada, já tudo se confunde e ninguém se entende! A esta família à beira do seu Alcácer Quibir terá faltado a sabedoria da minha avó Berta que, sempre que um dos seus sete netos, no calor de uma jogada mais arriscada do Monopólio, esboçava um contido insulto ou falava mais alto, usando a sua legítima autoridade apenas dizia: “…calai-vos, não sois vós tantos!”. E só assim, se calhar, os sete irmãos se mantiveram unidos.

Manuel de Brito