Com a divulgação dos números referentes ao 1º trimestre do ano, confirmou-se o que todos receávamos que viesse a acontecer: o desemprego disparou, o PIB regrediu 4%, situando-se agora ao nível de 1999, a nação é cada vez mais madrasta para quase todos, o trabalho é cada vez mais um luxo, o país encontra-se cada vez mais num estado pré comatoso, dependendo cada vez mais da “vontade divina” do que da ciência dos homens para “escapar”. Mesmo que se invertessem as políticas, fomentando a economia e por essa via o emprego, para a maioria das vítimas da política deste governo seria tarde de demais. O desemprego estrutural instalou-se, de tal modo que, para um indivíduo na casa dos 40 anos, o mais certo é nunca mais arranjar um vínculo laboral estável, permanecendo numa situação de maior ou menor miséria para o resto dos seus dias, porque a crise está para lavar e durar. Considerando que tudo corresse da melhor forma, ou seja: que os Hunos concordassem na emissão deEurobonds (títulos de dívida) para financiar a longo prazo o excesso de dívida acima dos 60%, considerados “pagáveis” a curto e médio prazo, transferindo o seu pagamento para períodos iguais ou superiores a 25 anos, que as economias europeias saíssem da recessão, possibilitando o incremento das nossas exportações com os consequentes efeitos na nossa economia e emprego, mesmo assim, para muitos seria tarde de mais. Para além desse facto seria necessário um governo que entendesse que os governos existem para servir as pessoas e não as pessoas, as suas cortes e o polvo político/económico a elas associados, para se servirem dos governos. A Nação é composta por pessoas e por famílias com sentimentos e com emoções, pessoas com expetativas, com um quadro de referências. A unidade básica da vida em sociedade não é a nação mas sim a família. Quando tudo falha, quando as pessoas não tiverem nada a que se “agarrar”, não terão também nada a perder e farão o que tiverem que fazer em prol da sua sobrevivência e dos seus. A economia destrói-se rapidamente mas leva muito tempo a recuperar, porém, no meu entender, os maiores danos infligidos ao país pela política deste governo às pessoas, não são económicos mas culturais, morais, emocionais. Este governo matou toda a esperança no futuro, instalou um clima de medo, de insegurança, no seu dividir para reinar, ativos contra reformados, privados contra públicos, o que fez elegendo um bode de expiatório de cada vez, transformando-o no “bombo da festa” e responsabilizando-o pelos males que ele próprio criou. Depois de 500 anos de Inquisição, 50 anos de fascismo, 40 de jardinismo (no caso da Madeira), o medo que o governo de Passos Coelho instalou nas pessoas é superior a qualquer dos outros. As pessoas temem pelo presente e pelo futuro, não exigem os seus direitos, são subservientes, com medo de não serem prejudicados no emprego ou na avaliação, aceitam trabalhar em qualquer condição. Esse clima perdurará para além da recessão, cumprindo o objetivo ultraliberal de criar uma mão-de-obra amorfa, sem direitos, disponível por qualquer preço. Lamentavelmente não se vislumbram alternativas que quebrem as lógicas político/económico/clientelares que nos dominam desde os tempos da monarquia. É tempo de romper com a lógica dos partidos que nos colocaram na presente situação. Necessitamos, por uma questão de sobrevivência como pessoas e como nação, dum governo de salvação nacional, composto por sábios, os melhores de nós, porque os há, e até sabemos quem são, bem como sabemos que, na sua maioria, não se encontram nos partidos. P.S. Na ordem do dia estão os professores com a greve aos exames no dia 17. Claro que os alunos lamentavelmente saem prejudicados. A lógica das greves passa por prejudicar sempre alguém. Claro queo governo preferiria uma greve ao domingo, ou nas férias. Para uma greve de professores ter um mínimo de impacto terá de ser necessariamente às avaliações ou aos exames, noutra altura qualquer apenas os professores ficam prejudicados, perdendo um dia de ordenado. Os alunos fazem uma festa por não terem aulas e o governo poupa um dia de salário. Ou seja, o impacto da greve é nulo. Se o ministro Crato não tivesse a cabeça tão formatada por uma matriz estalinista do seu passado FEC-ML, preferindo a requisição civil, o “braço armado do estado contra os sabotadores”, bastaria mudar a data dos “seus exames” para outro dia, diminuindo consideravelmente o “prejuízo dos alunos”. Aliás é incomensuravelmente maior o prejuízo causado aos alunos pelo desemprego dos pais, pela destruição do seu futuro, do que verem mudado o exame para outro dia. O governo mais uma vez diaboliza alguém, procurando desta vez criar aliados nas famílias dos alunos efetivamente prejudicados, e aproveita, de caminho, para se vitimizar. A fórmula é fácil e de consumo imediato. Ao exigir aos professores o cumprimento de um horário na escola de 40h semanais o ministro demonstra não saber que: Os professores não cabem fisicamente nas escolas todos ao mesmo tempo, nem nelas têm condições de trabalho, nem sequer papel higiénico. Trabalham já mais do que esse horário na escola e em casa, nos seus computadoras pessoais, em tempo seu, cumprindo tarefas cada vez mais abrangentes de índole administrativa e de assistência social, porque a crise criada pelo governo tem um impacto absoluto e imediato na escola. O ministro, ao proceder como procede, demonstra que não distingue uma escola de uma fábrica de sabão. Penso que os professores ficarão a lucrar se exigirem trabalhar (apenas) 40 h semanais. Já agora como andam a fazer a convergência entre os ordenados entre os setores público e privado, façam uma convergência efetiva aumentando o ordenado aos professores que são licenciados, mestres e doutores e que estão muito mal pagos em comparação com os portadores de habilitações semelhantes que trabalham no setor privado.
Helder Melim