João Paulo Beja estreia hoje 'Praça de Ideias' Vivemos tempos estranhos. Para que possamos ter futuro pedem-nos que abdiquemos do presente e esqueçamos o passado. Esquecem que uma nação sem passado e um presente incerto certamente não terá um futuro auspicioso. Não procuremos no passado quinhentista, pois esse apenas nos dá a profundidade da memória, mas sim nos últimos 40 anos. Os anos da construção da democracia política e da adesão ao projeto europeu. Aos portugueses pediu-se que construíssem uma democracia ocidental. Assim o fizeram. Portugal, apesar de dificuldades políticas e sociais, e duas intervenções do FMI, dotou-se de um conjunto de instituições que lhe permitiu ascender ao estatuto de democracia consolidada, em 1985. O Estado de Direito era uma realidade, a separação de poderes existia, o sistema de partidos funcionava e as eleições, livres e democráticas, permitiam a formação de governos com relativa estabilidade. E a adesão às Comunidades Europeias, em 1986, parecia indicar o caminho para o crescimento económico e social, e a estabilidade política. Todo este percurso, e décadas seguintes, foi possível devido à relação de confiança entre governantes e governados, à certeza inabalável de que o contrato social entre os cidadãos e o Estado seria honrado, à solidariedade entre e intra gerações uma realidade. Em suma, a certeza de um quadro de valores partilhados, valores que queremos que norteiem a vida em comum, e de um Estado de Direito. Hoje, junho de 2013, será que temos todas estas certezas ? Com tantos números, esquecemos os valores e preocupamo-nos em atingir objetivos que descuram quaisquer preocupações sociais. Acusamos a Constituição de estar desatualizada, sem resposta aos desafios dos nossos dias e desautorizamo-la. Proclamamos a solidariedade e anunciamos a possibilidade da redução de pensões e reformas já concedidas, em nome de uma suposta convergência entre o sector privado e o público. Será que, tal como alguém sugeriu no passado, estamos perante a suspensão do Estado de Direito. Ou estamos à espera que a linha seja cruzada. João Paulo Beja
João Paulo Beja estreia hoje 'Praça de Ideias'
Vivemos tempos estranhos. Para que possamos ter futuro pedem-nos que abdiquemos do presente e esqueçamos o passado. Esquecem que uma nação sem passado e um presente incerto certamente não terá um futuro auspicioso.
Não procuremos no passado quinhentista, pois esse apenas nos dá a profundidade da memória, mas sim nos últimos 40 anos. Os anos da construção da democracia política e da adesão ao projeto europeu.
Aos portugueses pediu-se que construíssem uma democracia ocidental. Assim o fizeram. Portugal, apesar de dificuldades políticas e sociais, e duas intervenções do FMI, dotou-se de um conjunto de instituições que lhe permitiu ascender ao estatuto de democracia consolidada, em 1985. O Estado de Direito era uma realidade, a separação de poderes existia, o sistema de partidos funcionava e as eleições, livres e democráticas, permitiam a formação de governos com relativa estabilidade. E a adesão às Comunidades Europeias, em 1986, parecia indicar o caminho para o crescimento económico e social, e a estabilidade política.
Todo este percurso, e décadas seguintes, foi possível devido à relação de confiança entre governantes e governados, à certeza inabalável de que o contrato social entre os cidadãos e o Estado seria honrado, à solidariedade entre e intra gerações uma realidade. Em suma, a certeza de um quadro de valores partilhados, valores que queremos que norteiem a vida em comum, e de um Estado de Direito.
Hoje, junho de 2013, será que temos todas estas certezas ? Com tantos números, esquecemos os valores e preocupamo-nos em atingir objetivos que descuram quaisquer preocupações sociais. Acusamos a Constituição de estar desatualizada, sem resposta aos desafios dos nossos dias e desautorizamo-la. Proclamamos a solidariedade e anunciamos a possibilidade da redução de pensões e reformas já concedidas, em nome de uma suposta convergência entre o sector privado e o público.
Será que, tal como alguém sugeriu no passado, estamos perante a suspensão do Estado de Direito. Ou estamos à espera que a linha seja cruzada.
João Paulo Beja