Tenho idade suficiente para muitas memórias, mas não me lembro de tempos parecidos com os que agora vivemos. É que não são só as dificuldades e o desemprego, a pobreza e a fome, nem é só a falta de confiança, a desilusão, o medo e o desânimo a afligirem muitos milhares de pessoas que não vêem saída, não têm perpectivas, não sentem possível um futuro diferente. É a certeza de que tudo isto não é por acaso; que não são quaisquer contingências do ‘excesso de desenvolvimento’, ou os ‘erros de uma política social’ ou porque ‘vivemos acima das nossas possibilidades’, que assim o determinaram. Ao contrário, tudo resulta apenas de uma estratégia montada ao pormenor, no discurso e nos comportamentos. Há dias, choquei uma amiga minha quando, numa conversa sobre a situação política, lhe disse que aquilo a que estávamos a assistir na Europa era à terceira guerra (a primeira faz para o ano 100 anos). Tal foi a sua indignação que vim para casa pensar melhor sobre o assunto mas, infelizmente, continuo a achar que tenho razão: mais sofisticado, substituindo as armas e os canhões pelas regras da grande finança, o objectivo é o mesmo - a ganância e o poder, o incomensurável poder de meia dúzia, a troco de um exército de pobres, tão intimidados e amedrontados quanto possível, o vazio democrático. Não haverá judeus, mas há milhões de tipos a quem se pode remeter à situação, inevitável, de ‘danos colaterais’ porque a estratégia de ganância da grande finança e dos grandes interesses os atirou para a miséria e a pobreza, o desespero e tantas vezes a morte. Não haverá Himmlers ou Eichmanns, mas há estrategicamente colocados nos lugares de topo de muitas governações, os agentes da alta finança, fiéis súbditos dos mercados. Em palavras mais simples, os que asseguram o controlo e a subjugação dos povos, para deixar campo aberto ao êxito das lavagens de dinheiro, dos off-shores, da corrupção, das escandalosas negociatas, do poder não eleito - os comissários da grande finança (de que a Goldman Sachs é exemplo de topo), sempre prontos a tudo. Quem é que não se lembra das promessas de controlo dos off-shore depois da hecatombe financeira provocada pela falência do Lehman Brothers em 2008? Vimos alguma coisa? Não, porque se trata do coração da especulação e da corrupção, por onde passa uma economia obscura, que ninguém quer controlar. Ouvir, agora o inefável ministro alemão, afirmar que o programa europeu para a Grécia não teve bases sólidas nem partiu de uma avaliação séria e se baseou no método da tentativa/erro, só permite a conclusão de que os gregos - a par de povos de outras nacionalidades (nós, incluídos) - foram as cobaias das novas experiências, tratados como ratos de laboratórios não por cientistas loucos, mas por gente que ideologicamente odeia a democracia. E quando vemos a deferência e os salamaleques com que os nossos governantes tratam esta gente, fica claro que não hesitarão em tomar qualquer medida que lhe seja ordenada, apesar de saberem a dimensão trágica das consequências. Não é possível ver Gaspar afirmar que não se desvia do caminho traçado ou que a quebra de investimento resulta da chuva, sem deixar de sentir uma enorme revolta por um sujeito que se dá ao desplante de tratar um país inteiro como um bando de imbecis. Mas que à frente de Schauble se curva, inclina a cabeça, quase rasteja, numa subserviência humilhante. Somos as novas vítimas desta gente. E é neste contexto, que só tende a agravar-se, que se vão realizar eleições. Na Alemanha e em Portugal. Da Alemanha não espero mudanças, mesmo que haja alteração na liderança do Estado. De Portugal e dos portugueses, é preciso uma atitude nova. Não porque sejamos capazes de, a partir de Outubro, inverter a situação na Europa e no mundo. Mas porque é preciso combater o medo e o desânimo, o adormecimento angustiado, a humilhação que amachuca. Faltam razões para acreditar? Faltam. Mas já é hora de começar a levantar a cabeça e a pormo-nos de pé. E, de repente, vieram-me à memória os versos da canção de Geraldo Vandé

«Vem, vamos embora que esperar não é saber Quem sabe faz a hora, não espera acontecer».

Violante Saramago Matos