As taxas moderadoras não foram criadas para financiar a Saúde,elas representam apenas 1% do valor despesa do Estado com a Saúde em Portugal. Tinham por objectivo moderar o consumo de recursos de saúde e levar a população a recorrer aos serviços prestadores de cuidados de saúde apenas quando fosse necessário. Com uma correcta utilização de serviços de Saúde, deviam constituir um instrumento para a redução de custos no sector, mas a sua acção tem levado a situações de limitação de acesso a cuidados de saúde e menor protecção em caso de doença. Uma população seguida com regularidade terá a sua saúde controlada e apresentará menor propensão para a doença aguda, diminuindo a probabilidade de recorrer à urgência hospitalar, sendo assim mais “barata” para o sistema. Com uma crise monstruosa, com uma taxa de desemprego dramática, com os serviços públicos de saúde pressionados a cortar em todos os lados, com os prestadores privados a lutar pela sobrevivência, com as famílias em dificuldades financeiras, esse acompanhamento é muito difícil de garantir e existir em toda a população. A população mais frágil poupa nas idas ao médico, evita fazer exames, corta na farmácia, poupa nas deslocações para se tratar, nunca pede uma segunda opinião médica eadia para o próximo mês o que deve ser tratado agora. Para estes, viajar para se salvar é um luxo impossível. Para estes,“esperança” significa esperar que nunca fiquem doentes. Para esta parte da população, a que não está isenta do pagamento de taxas na saúde e não tem capacidade económica para ir ao médico particular, não existe nada para moderar, elas ficam efectivamente fora do sistema até que a sua saúde atinja determinado grau de gravidade. Não podemos criar obstáculos no acesso à saúde, por causa de valores irrisórios, que posteriormente irão levar a situações graves para a vida das pessoas, com todos os custos e dramas associados.Para quem não tem nada, pouco por vezes é demasiado.

Duarte Nuno Dória