Luís Guilherme Ferreira Como professor, quando me efectivei, fui colocado na escola da Palmeira, em Santa Cruz. Era um edifício construído de raiz. Tinha duas salas de aula: uma no rés do chão e a outra no primeiro andar. Tinha amplas janelas apontadas para o sul. O pátio ficava ao mesmo nível do rés do chão. Em frente ao pátio havia um terreno de bananeiras com um desnível de dois metros. O pátio estava cheio de erva e eu disse aos meus alunos que íamos limpá-lo para jogarmos futebol. Disseram-me que o dono das bananeiras ralhava com eles quando a bola caia no terreno e nós ao irmos busca-la estragavamos os regos e danificavamos a cultura. Quando o pátio ficou limpo, fomos jogar futebol, e em vez da bola cair na cultura quem caiu em cima de uma bananeira fui eu. A minha sorte foi a bananeira não ter estaca pois se tivesse não sei o que me teria acontecido. É claro, o fato e a bata (na altura usávamos bata branca) foram para o lixo pois ficaram cheios de nódoas. O engraçado deste episódio é que há relativamente pouco tempo, encontrei um aluno, dessa altura que trabalha num hotel ali para os lados da Ajuda que me perguntou: Sr. Professor e aquela bananeira?...
Nos anos 60 do século passado era costume alguns alunos trazerem os livros dentro de uma mala de vimes e muitas vezes passavam um cordel para poderem trazer a mala a tira colo. Um dia chamei um aluno ao quadro e o cordel embaraçou-se-lhe num sapato e ele trouxe a mala de rasto até ao quadro. Eu disse: pareces me uma “galinha choca” pois na altura, quando uma galinha tinha pintainhos era costume amarrar a extremidade de um cordel num sapato velho e a outra a pata da galinha para ela não levar os filhotes para as hortas e não danificar os “regos”. Passados tempos um meu aluno perguntou-me: Sr. Professor, sabe quem foi para a Austrália? Foi o “Galinha Choca”!... Tinha um aluno que por tudo e por nada acusava os colegas: Sr. Professor, o João deu um “Vento”, o Francisco fez-me um “modilho” (careta) o Manuel isto, o José aquilo, etc… Um dia disse-lhe: Pareces um polícia pois tás sempre a acusar alguém. Uns anos mais tarde um meu aluno perguntou-me: Sr. Professor sabe quem foi para a Venezuela? Foi o Polícia!... Numa das minhas idas a Lisboa fui interceptado por um guarda fiscal que estava de serviço no aeroporto da Madeira que me disse: “Vai-me pagar por aquele puxão de orelhas que me deu”. Puxão de orelhas?, perguntei-lhe. De imediato deu-me um abraço de gratidão, pois se não fosse aquele puxão de orelhas não teria feito o exame da quarta classe e não estava ali naquele trabalho. Obrigado