Hoje dei por mim a pensar no tempo que nos acompanha ao longo da vida. Esse tempo que não nos larga um segundo e não nos permite recuar. Revi o tempo da descoberta, dos medos e dos desafios, do sabor da ingenuidade e do calor das bochechas vermelhas. Do tempo da vergonha e da ousadia, da confusão entre o certo e o errado, e do instante em que a infância se cruza com a adolescência. Do tempo de brincar com bonecas e jogar às escondidas, onde espreitam as primeiras fantasias, de gente pequena, com sonhos de gente grande. E depois o mundo começa a crescer, tanta coisa para fazer, para pensar, para imaginar e para construir. O tempo não incomoda, está lá, e ainda falta tanto. Os dezoito demoram a chegar, não que faça muita diferença, é mais uma questão de estatuto. Cinema para mais de dezoito, bilhetes de identidade apresentados, com orgulho, e muitas, muitas, certezas. O tempo começa a acelerar, projetos académicos, projetos de vida, ilusões, desilusões, o principio da realidade a ganhar lugar no pódio, esboços de futuro e sonhos em ebulição. Na hora da construção, tudo parece encaixar no sítio certo, mais peça menos peça, a noção de que a vontade supera a realidade, continua a ignorar o tempo, e das quedas resultam apenas arranhões. Mas o tempo está lá e de vez em quando começa a espreitar, devagarinho, como quem quer aparecer, sem assustar, fazendo-se notar sem exuberância. E aí, inicia-se a corrida. Família, filhos, trabalho, concretização de sonhos sobre sonhos. Mais e mais, uns levam aos outros, impossibilidades atropeladas por novos desafios, confrontos e desconfortos, guerra dos sexos, das profissões, dos estatutos. Comparam-se carros, filhos, telemóveis, casas, roupas, notas escolares, cargos, maridos, mulheres… Só que o tempo vai ganhando espaço e a inutilidade das rotinas e das guerras de poder torna-se clara. Colecionar vida deixa de fazer sentido. É preciso mais. Há como uma necessidade de voltar ao passado para continuar a construir futuro. Trazer os sonhos de volta, agora com um outro sentido estético. Recomeçar, com começo afastado pelo tempo, mão firme a agarrar o lápis e a certeza de que a dúvida já não transporta ameaça. Os medos vão diminuindo e a descoberta do lugar que ocupamos no universo a que pertencemos, tira sentido às omnipotências e torna as brigas de galinheiro, absolutamente ridículas. A vida torna-se mais lenta e suave. Já não é preciso correr. A luta contra o tempo deixa de fazer sentido. Fica claro que existe vida e tempo, e que a ligação entre ambos é pacífica e inevitável. Chegam as rugas ou marcas da história, e por vezes um sentimento de entrega do corpo ao tempo. Apesar das tentativas de esconder o rasto das memórias, a verdade é que o tempo passa e a história engrandece, marcas são marcas, simples sinais dos tempos. Culturalmente preparam-nos para a vida, e educam-nos de forma a ignorar o envelhecimento e a morte. Qualidade de vida é um bem precioso mas não nos afasta do ciclo, permite sim, vivê-lo com mais acuidade e astúcia. E é assim que pé ante pé vamos evoluindo no tempo e no espaço, construindo vida e fortalecendo laços. O tempo avança e nós caminhamos ao lado. O fim chegará um dia, de repente, sem perguntas nem respostas, provando que a eternidade é o desenho marcado nas nuvens que povoam os sonhos dos que nos guardam, para sempre, na sua memória. Do ciclo da vida emerge o da eternidade.

Manuela Parente