As auditorias sucedem-se. Os relatórios multiplicam-se. Os reparos aumentam. E as infracções, algumas primárias, continuam. Falo das contas públicas e das quase sempre inconsequentes fiscalizações por dezenas de técnicos. Em muitos casos, tão minuciosas vistorias acabam em nada. Em rigorosamente nada. Chega a ser quase deprimente assistir às observações do responsável do Tribunal de Contas quando se desloca à Madeira para dizer aquilo que já se sabe: que continua a haver infracções, que há falhas nas contas, que os concursos não observaram todas as regras, que as adjudicações carecem de outro rigor. Com alguma benevolência, nos últimos anos têm sido encontradas melhorias mas continuam por acatar procedimentos básicos e já recomendados em relatórios anteriores. Conclusões que caíram em saco roto. De que servem reparos e críticas, por mais contundentes que sejam, se depois alguém acha que as contas até podem estar erradas mas falta um papelinho para fazer prova? De que servem processos muito bem instruídos, se depois alguém decide que não há matéria para julgamento? De que servem relatórios sustentados em dados cruzados, se alguém se fica comodamente pelas questões técnico-jurídicas e aí se abriga e abriga tantos outros? De pouco. De muito pouco. Apenas para aumentar esta sensação de impotência perante muitas contas que não batem certo. Esta aparente balda só melhorou mesmo com a aplicação de um quase cego Plano de Ajustamento Económico e Financeiro que nos dificulta a vida a todos mas tem o mérito de por quase tudo a descoberto. É esse documento, totalmente contra os princípios sagrados da nossa autonomia, que agora sustenta esta mesma autonomia. Na prática é como o pai que em vez de cortar a mesada ao filho, castiga-o, mas continua a dar-lhe uns trocos só que exige factura de tudo. E é assim, controladinhos quase ao tostão, que os principais dirigentes políticos regionais continuam a pedir mais autonomia. No fundo, no fundo, todos sabemos que não é bem isso que querem. É aumentar o fundo de tesouraria. E depois, quando muito, essa autonomia apenas vai garantir a alguns, aos mesmos de sempre, mais tesouraria. Até rima mas não é bem a mesma coisa. E assim continua o ciclo de alguma impunidade a coberto de decisões políticas de duvidosa utilidade. Porque, apesar do risco cada vez maior e das advertências e reparos públicos, parece que o 'crime' ainda compensa.