Uma grande palhaçada, que já não nos faz rir. O circo está armado, mas é de fraca qualidade.

De um lado, o Presidente da República que não quer ser conhecido pelas suas graçolas, dispensa méritos, aplausos e que o metam em determinadas categorias profissionais. Afinal não foram linhas de um espectáculo pobre, previamente ensaiado, quando foi ao Açores contemplar o sorriso das vacas ou quando disse que a sétima avaliação da ‘troika’ a Portugal tinha sido inspiração da Nossa Senhora de Fátima ou invocou o São Jorge já nem me lembro bem para quê. Diz que aquilo era para ser levado a sério e não era piada nenhuma. E não é ventriloquia aquilo de falar na terceira pessoa.

Do outro, o ministro das Finanças a dar um ar da sua graça e a revelar uma faceta de ‘stand up comediant’ que animou as redes sociais em semana de Orçamento Rectificativo de mais sacrifícios. Reclamou solidariedade dada a sua condição de benfiquista sofredor e a plateia riu-se, mas ninguém o chamou aquela coisa que não deve ser dita em público, sob pena de ir tudo para tribunal. Não fosse o diabo tecê-las. Gaspar, a ave de rapina das Finanças que voa rasante pelos sinuosos caminhos da austeridade, esforçou-se e se calhar merecia o elogio que Cavaco dispensa.

Mas isto da ‘palhacice’ que vai parar à justiça não é coisa nova. Em 2008, Daniel Oliveira foi condenado por chamar palhaço ao presidente do Governo Regional da Madeira, numa artigo publicado num semanário. Sim, ao mesmo senhor que considera os deputados do parlamento regional um “bando de loucos” (estaria a antecipar as guerras internas entre os seus?), que queria expulsar o “senhor Silva do partido” e o que chamou “bastardos” e outras coisas aos jornalistas, mas que se sentiu "stressado" com o alegado insulto e até levou um médico para o comprovar.

Ora, o pior é se isto faz jurisprudência. E os árbitros deste país? E as suas mães? Se vai tudo a correr entupir mais os tribunais, quais virgens ofendidas. E os palhaços de verdade que se sentem lesados na sua imagem? E o cidadão comum que todos os dias vê a sua honra e integridade na lama? As pessoas a quem roubam direitos (que nunca foram adquiridos), esvaziam a alma, mais do que os bolsos, despudoradamente, e ainda pagam, com sangue suor e lágrimas, este espectáculo de palhaçada sem graça nenhuma?

É mais uma prova de que Cavaco Silva, tal como Jardim, convivem mal com a liberdade de expressão, apesar de estarem há anos agarrados a posições que os fazem estar sob escrutínio permanente. Este cheiro a mofo e naftalina lembram o antigo regime. ‘Palhaço’ ainda foi do mais simpático que chamaram a um e a outro, perante outros adjectivos que lhes fariam muito mais justiça. Os únicos que percebo no meio disto tudo são os palhaços,que mereciam, de facto, outra deferência.