Eu também queria maior autonomia para poder governar a minha vida sem ter de fazer contas de sumir e sem ter de explicar porque é que ainda há gente, como eu, tão burra que ainda fuma, gastando mais de cem euros mês nessa coisa que vai matando lentamente. Um vício que dá um prazer inexplicável após e que não se percebe porque é tão nocivo. Afinal, quase tudo o que é bom nesta vida arranja problemas, alguns de ordem física, outros na psique. Mas os euros mais mal aplicados são os que metemos no IMI. De entre todos, sendo o imposto mais injusto aplicado aos vivos, o IMI é fruto da ganância das finanças e das autarquias. Depois de pagarmos IMT, licenças de construção e de habitabilidade, taxas de saneamento e disponibilidade de águas, este ladrãozito rouba-nos praticamente um mês de salário sem qualquer explicação. E depois há gente que não entende como é que as finanças nos avaliam a casa muitas vezes a preços pelos quais não a conseguimos vender, para além de que sempre desconfiam dos valores escriturados. Como também não se entende que um cidadão não tenha isenção de IMI se o seu imóvel atingir determinado valor, quando vemos hotéis e outros estabelecimentos comerciais a beneficiar de isenções de 10 anos. Imagine, caro leitor, que o Casino da Madeira, com seis andares e mais de 16 mil metros de logradouro e parques, tinha uma avaliação a rondar um milhão e trezentos mil euros (compro já!), valor dez vezes superior ao da sua casa, implantada numa área a rondar os 200m2. Agora, fruto de uma imaginação ainda mais fértil, associe o edifício do Casino ao jogo e à desgraça de algumas famílias que espatifam parcos rendimentos na procura do milagre e, fruto desse jogo, beneficie de uma lei que lhe permite isenção de IMI por dez anos. Acredita que os proprietários daquele edifício estão isentos de IMI durante uma década? Afinal, onde está a justiça dos impostos e a contribuição para a parte social? De que serve à Câmara cobrar IMI se deixa águas estagnadas e infestadas de mosquitos no jardim de Santa Luzia, em terrenos que foram expropriados por preços “nada comparáveis” ao valor atribuído ao Casino e onde alguém construiu um grande espaço verde?! De que serve às entidades que nos governam andarem de casa em casa a virar pratos de vasos de flores, quando não conseguem combater o “aedes” no seu próprio jardim?! Sim, preocupem-se com as hortas urbanas, é preciso dar a possibilidade gratuita de alguns cidadãos cultivarem as suas batatas, cebolas e alfaces, porque o mercado e as grandes superfícies estão atoladas de clientes. Será que vai chegar o dia em que vão cobrar IMI aos agricultores de ocasião e de fim-de-semana? Ou vão exigir que se coletem e usem guias de transporte para evitarem problemas com a GNR quando levam o saquinho de batatas pra casa?! O estado, que deixa cada vez mais de ser social porque está eivado de incompetentes que não sabem gerir os dinheiros públicos e fazem-no de forma danosa e inconsequente, usa e abusa das leis que cria, sempre com dois pesos. Ao mesmo tempo que penhoram bens, muitas vezes por erros da própria máquina administrativa, são negligentes no observar de direitos dos cidadãos. Basta ver quem ainda não recebeu depois de falida a Qualifrutas, ou os funcionários da antiga direção geral da aviação civil (DGAC) que descontaram para um fundo social e... népia. Será que alguém está à espera que, após 15 anos de reforma, ninguém descubra quem tem direito a esse fundo social? Ou estão, na imperativa lógica da vida, à espera que esta se extinga?

Paulo Gomes