Anabela Sousa Os madeirenses, são na sua maioria pessoas de bem, gostam de ter as suas contas em dia, gostam de andar de cabeça erguida. Muitos de nós nascidos em berços humildes um dia acreditámos que a nossa vida poderia ser melhor que a dos nossos pais. Acreditámos que poderíamos ter o nosso próprio apartamento, o nosso carro, o nosso negócio. Acreditámos que poderíamos dar aos nossos filhos aquilo que os nossos pais não nos puderam dar. Acreditámos que os bancos eram nossos aliados e que queriam o nosso bem-estar. Acreditámos que os políticos que elegíamos eram pessoas sérias e que lutavam pelos nossos interesses. Acreditámos que iríamos ter sempre trabalho, desde que fossemos assíduos, produtivos e responsáveis. Acreditámos que os nossos filhos poderiam ser doutores. Os bancos ofereciam-nos créditos, os Stands de automóveis acenavam a cada esquina, o nosso apartamento de sonho estava ali mesmo ao lado, os média exacerbavam tudo e mais alguma coisa e nós humildes madeirenses, ficámos numa espécie de zombies, embriagados pelo ter, extasiados com a ideia de termos descoberto o nosso pote de ouro no fim do arco iris. Mas o pote de ouro, afinal não existia. O que havia era um pote cheio de cartões de crédito que reluziam ainda mais que o ouro. Também havia acções, contas caucionadas, contas ordenado, títulos do tesouro… O tipo de casa, de carro, de fato, a pele bem tratada, o cão com pedigree os filhos com roupa de marca eram a nossa meta para sermos considerados finalmente europeus de primeira classe, filhos de um Deus superior. Hoje, a maioria de nós tem crédito habitação, crédito para pagamento do carro, crédito para pagar os estudos dos filhos, e até ontem, estávamos a conseguir pagar, porque tínhamos um emprego garantido. Mas hoje, acordamos bem cedo e fomos a correr acariciar o nosso pote, mas ele tinha desaparecido. No seu lugar havia uma caixa de ferro, atafulhada de spreads vergonhosos, taxas de juros que sobem e descem sem explicação, comissões bancárias para um minuto de atraso no pagamento, cheques sem cobertura, acções sem valor nenhum, crédito mal parado, impostos, e desemprego. Temos todos de nos vergar a outro Deus - o Deus da austeridade - que esteve a dormir e não nos protegeu, enquanto éramos manipulados e anestesiados pelo poder, para que a corrupção invadisse o nosso país. Agora temos de apertar o cinto, ajudar o país a livrar-se deste défice que a todos envergonha, temos de pagar com o pouco que ainda recebemos, os desvairos desta máquina cheia de tentáculos, que enriqueceu uns, empobreceu e endividou outros. Queremos cumprir com os nossos compromissos, mas parece que de repente todos puxam o tapete. Os bancos estão muito preocupados com as taxas de esforço das famílias e empresas e então a solução é aumentar o spread, para reflectir nas suas contas o capital de risco. O Governo quer baixar o seu défice, aumenta impostos com pressupostos errados, resultando numa diminuição drástica do nosso ordenado e na insolvência de inúmeras empresas. Se é verdade que a sociedade perdeu pelo caminho valores que o dinheiro não compra, também é verdade que sem trabalho, sem dinheiro, a dignidade do ser humano é posta em causa e permite que se perca tantos ou mais valores. Ter dinheiro aumenta o nosso leque de escolhas. As nossas escolhas é que são o cerne da questão!