
Ver dois dirigentes de um partido - daquele pequeno grupo dito de confiança do líder -, a brigar nas reuniões e nos tribunais, ler e ouvir, quase todos os dias, trocas de acusações entre outros e, sacrilégio supremo, assistir a acusações directas ao chefe, pedindo a sua saída, só mesmo em sonho. Acordado, há bem pouco tempo, ninguém acreditaria nisso e quem fizesse uma previsão de que tal viria a acontecer recebia um bilhete na ‘Carreira 11’, aquela que acaba no Trapiche.
Mas é verdade, o PPD/PSD-Madeira/Partido da Autonomia está assim, esfrangalhado, partido e, pelo que se vê, assustado com algo que sempre considerou uma festa e motivo de exibição de força: eleições. O medo de uma derrota inédita é impossível de disfarçar E o culpado, por muito que os poucos fiéis tentem disfarçar é um: o eterno líder que não soube sair e modernizar um partido que vive no século XX, no meio do fumo e do cheiro a pólvora do pós-25 de Abril e da aprendizagem democrática. Um partido que não aprendeu a viver num diálogo democrático normal.
O que se assiste, na Madeira, é a um cenário, óbvio, de fim de regime e de último estertor de algo que há muito deveria ter sido renovado ou substituído. Como em todas as situações semelhantes, estes são os piores tempos, os mais perigosos, porque as feras acossadas – neste caso até pelos seus mais próximos – ainda são perigosas e podem causar danos graves. Ainda podem matar, no seu desespero por sobreviver a todo o custo, mesmo que a lógica aponte no sentido contrário.
Também como acontece sempre com quem lidera estes regimes, nos últimos tempos vive-se uma ilusão de poder, alimentada pelos que pretendem abocanhar o que resta dele. Salazar, depois de cair da cadeira, ainda viveu alguns anos, numa consciência limitada pelas lesões, na ilusão de que mandava, quando já não riscava nada. Infelizmente, esses anos coincidiram com uma das fases mais violentas da ditadura, com a PIDE a trabalhar a todos o gás, a tentar travar o inevitável.
Por cá, mesmo que se multipliquem os comícios nos actos oficiais de governação – algo que só é assustador porque se tornou tão natural e não é um escândalo de dimensão nacional – o rumo dos acontecimentos parece definido. E entre os que já foram fiéis já ninguém parece ter dúvidas.
* ‘Fim Regime’ foi o nome escolhido para a operação que conduziu à Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974. Um regime caduco de quase cinco décadas caiu e um País que vivia desfasado do tempo entrou no caminho da democracia.