E ele há coincidências que não lembram ao diabo! Na passada semana, a revista Heart Magazine convidou-me a escrever um artigo sobre o amor. Registei a gentileza e o reconhecimento subjacente ao convite, mas não pude deixar de me rir porque já me encontrava a alinhavar esta crónica sobre como é difícil ser-se divorciado com filhos quando o amor acaba e os amantes, que no início não podiam viver um sem outro, se transformam em gladiadores numa arena que se estende por anos e anos ou, para ser preciso, pelos anos em que um dos ex-cônjuges tem de pagar a célebre pensão de alimentos ao outro para sustento dos frutos do tal amor que juraram no dia em que o futuro parecia promissor. E lembrei-me deste tema não porque se fale tanto em pensões neste momento em Portugal, aliás, o governo já se encarregou de me dar mais de vinte anos para me preocupar com a da minha reforma, mas porque nos últimos dias grande parte dos meus amigos divorciados anda com os nervos em franja à conta da dita cuja. Quer os que a pagam, quer os que a recebem. Os que a pagam, geralmente pais que refizeram a sua vida e já têm outros filhos, entendem que elas, as ex-amadas, só os veem como máquinas registadoras enquanto elas, as outrora amadas, vivem na ansiedade permanente de eles, pais dos seus filhos, deixarem de pagar o que devem, deixando-as a elas em muito maus lençóis. Sim, porque isto de criar filhos sai caro. Os primeiros julgam que as ex’s querem apenas massacrá-los, as segundas entendem que os ex’s, agora com novas famílias, se esqueceram dos primeiros filhos e que, se calhar, pensam que elas usam as famigeradas pensões para ir ao cabeleireiro ou para pintar a casa. Confesso que por muito que goste dos meus amigos, sejam eles divorciados ou não, e por muito que não goste das suas ex’s, ou vice-versa, não posso deixar de reconhecer que, no que concerne ao pagamento de pensões de alimentos, muitos são os pagadores que arranjam mil e uma desculpas para legitimar o não cumprimento desta obrigação. Porque, admitamo-lo, não é fácil pagar uma prestação a mais no final do mês quando já se tem a da casa, a do carro, para além das despesas da escola com os novos miúdos, as compras do supermercado, etc, etc... O problema aqui, no entanto, é outro: é que a dita prestaçãozinha de que aqui se fala, a tal que curiosamente não dá direito à penhora, é por ventura a mais importante de todas, porque tem a ver, nada mais, nada menos, com o sustento do filho ou filhos que não pediram para nascer quando, num qualquer momento do passado, parecia que o amor seria eterno. Há dias, por exemplo, um amigo contava-me que a ex-mulher teimava em não lhe pagar a pensão de alimentos, acreditando ser injusto ela ter de o fazer uma vez que era mulher (?!) e ganhava menos do que ele. Na mesma conversa, outra contava que o ex já ameaçara várias vezes deixar de pagar a pensão à filha recém-licenciada, leia-se condenada ao desemprego, porque ela já podia trabalhar, o que quer dizer que, enquanto não arranjasse trabalho, verdadeira miragem no país que temos, viveria a expensas do baixo salário da mãe, que sustenta o irmão a estudar no exterior, ou então iria morar para debaixo da ponte... Por outras palavras, os licenciados no desemprego perdem o estatuto de filhos do pai divorciado mesmo que não tenham forma de sobreviver. É claro que outros casos há em que a vítima é quem paga, porque quem recebe quer sempre mais e exige mais, tornando-se num pesadelo pior do que o de Elm Street. Tudo porque, depois do amor, só ficou o ressabiamento e o desejo de vingança que rebenta com tudo. Até com a vida dos filhos. Há coisas que, de facto, me fazem confusão. O divórcio não é uma delas, a desresponsabilização dos pais é que é. E cada vez parece estar a alastrar-se mais. Ou porque as segundas mulheres, que correm os mesmos riscos de se tornarem ex’s como as primeiras, porque o amor acaba para todos, pressionam no sentido de que a nova família seja a prioridade ou porque a vida vai mal ou porque a crise, a mãe de todas as desculpas, não está para pensões nem sequer de alimentos. Os filhos, que para desgosto de muitos não podem ser escondidos sob o tapete da crise, é que se lixam se não contarem com uma mãe ou um pai que, com ou sem pensão de alimentos, se esfole por lhes dar o que merecem. Os miúdos, esses não entendem nada disto. Nem podiam pois estão entre a espada e a parede, sendo a espada mais fácil de gerir porque, longe, exige tão pouco quanto dá. A parede, essa é dura e implacável, porque, afinal, é ela quem faz as contas em casa e tem de pôr ordem no futuro. Com pensão ou sem ela.

Eker Sommer