Todos os dias sou confrontado com o descrédito das pessoas nos políticos que nos representam. Julgo que a expressão da abstenção em próximas eleições será disso o principal testemunho. E temos de reconhecer que, nos últimos anos, com o recuo de muitas das regalias e garantias a que estávamos habituados generalizou-se a desconfiança e a descrença. Direitos adquiridos? Garantias constitucionais? Tudo se esvai na substância de um estado de necessidade em que o País colapsou. E fica a certeza de que alguém nos enganou, ao ponto de - gato escaldado... - deixarmos de confiar em quem quer que seja. A minha surpresa e a razão deste artigo é no entanto de ordem superior. Dou o devido valor à desesperança e solidarizo-me com as agruras e dificuldades de muitos milhares. Mas devo declarar que tenho o maior respeito por quem hoje, nesta triste situação em que nos colocaram, teve a coragem de aceitar governar, de deixar os seus empregos e as suas vidas, para servir o País. Sei que muitos erros têm sido cometidos e sei da falta de jeito que tem sido apanágio em muitos dos atos de quem nos governa. Mas isso não pode fazer esquecer o hercúleo esforço que se está a tentar fazer para a nossa credibilidade externa e a sustentabilidade do estado social que criamos. Só que em vez de haver a honestidade de dizer a verdade e de reconhecer que poucas alternativas existem (a não ser que queiramos ser uma Albânia no século XII, fechada ao Mundo ...) o que parece assaltar a mente de alguns é “deitar o baralho na mesa e dar as cartas de novo”. O que começa a preocupar verdadeiramente é a reação de alguns políticos nesta circunstância. O povo português tinha o direito de ter políticos à altura e que, com verdade, se esquecessem dos seus interesses paroquiais e honestamente se predisponham a esclarecer a situação do País. Mas não é isso do que se trata: Uns, os mesmos que atearam o fogo à casa, agora regozijam-se, nas noites de Domingo, a dizer mal dos bombeiros que o tentam apagar. Outros, esquecendo-se os tristes tempos de 1983-1985 quando chefiavam o Governo, querem cortar com os credores, querem romper com os acordos que aplaudiram na altura, querem tornar a enganar com ilusões desastrosas para o nosso futuro. A última foi a de um antigo chefe de Estado, cheio de si e da auto-importância que teve para o regime, vir dizer que eleições antecipadas é normal em democracia. O mais normal em democracia é um Governo durar a legislatura, ainda por cima quando tem apoio de uma maioria parlamentar ou é fundado numa coligação. Alguém sinceramente acredita que eleições antecipadas traria algo de novo a Portugal? Alguém vê como possível governar diferente, nos grandes objetivos e desígnios, na situação de condicionamentos em que estamos ? Alguém crê que a Troica deixará de ser o que é só porque o Sr. A é agora o primeiro ministro? Já não basta o exemplo da Grécia e da França? Sejam verdadeiros e realistas com o povo a bem da credibilização da politica e da democracia. Há cem anos também houve uns republicanos que bateram o pé na mesa das negociações do pós-guerra e que prometeram bacalhau a pataco. O resultado veio de Santa Comba, e aí não foram só as Finanças que tiveram de ser apertadas .

Ricardo Vieira