Começar por assentar bem o papel, abrir os olhos e saber fechá-los; os olhos doridos ou abertos, mas privados. E largar tudo. Ou só olhar para trás certos de não haver mais nada além da cal onde fizemos riscos, um nome, ou até versos, onde as nossas unhas rasparam indefinidamente numa só noite: a ouvir os rios. O que era forte e branco e era ontem: fizemos muros sem precisarmos deles. Sim, existiam até os descobrirmos com uma dor na testa; e as vozes, os guizos de alegria, a tua mão era um engano correndo, ideia desenhada, filosofia espia, num campo de papoilas: o único real. Tínhamos os olhos redondos virados para os lados, víamos mais do que era permitido. O que era de urze e de esteva, estava com segredos e era mais do que ontem, era ser louco: vão é esquecer cada flor e ver-lhe que sinais, que longa assombração. Aceito o musgo, não acredito nele. É isso, contra os deuses. Pouco a pouco vou arriscar a pele e não temer estar nu, corrido a vento. Nem nestes versos maus, nem nesses olhos ternos aos primeiros Sábados, nem estradas a correr à nossa frente, não sei : quê respiração? Tomar banho às vezes e esperar uma só coisa, angulosa e palpável ( que é como quem acorda para o outro lado: ninguém pode prever ). É não olhar para trás. É não olhar senão o problema irresolúvel, apurar o ouvido sabendo: para não ouvir

Entre a vida e a vida te colocas, meu papel transparente e tão minha de voltas, idas, velas pandas, docas, perdida e achada. É sossego do meio, largo império dos dias e das noites , minha roda de espuma e hemisfério da lua mais oculta que acalanto ao peito das vaidades, teu cheiro e a verde paz humedecida, meu retrato azul de corpo inteiro, vento de algibeira já puída das mãos com que te beijo, meu celeiro, andas e estás: vida.

De bruma e bruma a branco e branco vem, de lato a circunciso, mas descido ao mais soluço ventre, ao de mais mãe, ao de mais fundo acaso de nascida. Se te vejo hoje e se tu me vês, quais olhos poderão não ocultar-te, que o tudo que te der ou que me dês, o abraço despojado de outra arte senão a de ocupar a nossa vez, apaga o escuro, amor, à luz de te amar. Que entenda quem puder. Sabes, digo adeus aos versos que se vão e aos que chegam, marcados desde dentro como teus, como sons imperfeitos, como de olhos abertos e dados: somos o cheiro das horas, mas de segundos contados. E aquelas palavras? Que se entreguem a quem passe e repasse, e já não sabe se a conjugação de como é ou de quem é. Como se o dia em que te escrevo é que te sigo, e nada mais importa, a ti ou a mim mesmo, ao que vier deste completo Inverno em que me abeiro da verdade. Num país infalível eu te quero, numa nuvem de sucos e de lumes; num país insolúvel desespero sem tempos pelicanos que me arrumes: sem tempos mais perfeitos, ou sequer imperfeitos, solertes, abonados de horas de colares e de mulher que és, não minha, mas perto, nos parados minutos anos-luz: mais verdadeira. Num país de estevas quero escrever e em barro inventarei giestas vida inteira até nunca. Que nele é que me tomo e me amarro.

Pergunto: porque pergunto? Estar em pé é estar deitado ? Porque é que a gente é diferente - ou não é isso: o que é a diferença? Oh, lutos e alegrias, existis, mas quem vos pensa? Sendo fiel às palavras, de olhos bem abertos e dados, somos o cheiro das horas mas de segundos contados. E que palavras? Palavras que disseste e já não dizes, palavras como um sol que me queimava, olhar louco de um vento que soprava em olhos que eram meus, e mais felizes. Palavras que dissestes e diziam segredos que eram lentas madrugadas, promessas imperfeitas, murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam. Palavras que dizias, sem sentido, sem as quereres, mas só porque eram elas que traziam a calma das estrelas à noite que assomava ao meu ouvido. Palavras que não dizes, nem são tuas, que morreram, que em ti não existem, - que são minhas porque persistem na memória que arrasto pelas ruas. Te crio no poema, e mais te creio no que palavras dizem devagar, tão distantes de ti, e só mais perto do que mesma podes: fim do meio. Se me repito e grito. Agora estar, no centro do errado é que está certo. E te revês, tão de revezes furta, tão lírica, petinga, amadurada em sóis doloríssimos e densos. Se te revês, revês cortez, uma menina de amor, pequena e nada, comigo : os nadas são imensos . Era o amor que chegava e partia: estarmos os dois. Era um calor que arrefecia sem antes ,nem depois. Era um segredo ,sem ninguém para ouvir: eram enganos e era um medo, a morte a rir nos nossos verdes anos e os teus olhos não eram paz, não eram consolação. O amor que o tempo traz, o tempo o leva na mão. Foi o tempo que secou a flor que ainda não era. Como o Outono chegou no lugar da Primavera! No nosso sangue corria um vento de sermos sós. Nascia a noite e era dia, e o dia acabava em nós. O que em nós mal começava não teve o nome de vida: era um beijo que se dava numa boca já perdida. Nem mais uma palavra. Nem uma direi de parto ou de perto. Há outra luz, eu sei: não me condenarão. É a luz que sobre o mar se deita. Calando, qual de barco, prenhe, vou estoirar dispersando no vento - e então sussurrarei as letras que não leio - nem lerás.

Só não te dou o que serei. Não a minha morte, não ta dou. Porquê? Como? Entraste no meu segredo.

Renata Camacho